REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511221431
Wilson Staub
Clovis Alceu Cassaro
Jaime André Klein
Soeli Staub Zembruski
Vanessa Maria Back Schwengber
Vanderli Liane Back Manske
RESUMO
A leitura, atividade muito significativa em nossa sociedade, é fundamental para o desenvolvimento humano. Assim, entendemos que o direito à leitura é um dos pilares básicos que pode garantir o exercício da cidadania. Por este motivo, pretendemos refletir acerca de aspectos que interferem na dinâmica do ato de ler. Este trabalho é parte do Projeto de Pesquisa Direito à Leitura e tem como objetivo analisar a percepção dos estudantes dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental de uma escola pública de Santa Catarina, Brasil. Para este estudo utilizou-se metodologia mista, que consistiu em obter informações quantitativas e correlacioná-las com reflexões teóricas sobre leitura. Os resultados apontam que grande parte dos estudantes em fase inicial de escolarização aprecia o ato de ler. Além disso, para o grupo de alunos observado, os dados analisados indicam que o ambiente doméstico é o espaço costumeiramente utilizado para a prática da leitura e que seu principal objetivo relacionado à leitura é o entretenimento. Concluímos que os primeiros contatos com a leitura tendem a ser agradáveis e relacionados a influências afetivas e ao ambiente doméstico, diante de que abordamos os objetivos da prática de leitura na escola a partir da dicotomia entre os objetivos utilitários da leitura em relação à apreciação lúdica da atividade. A partir das quais, surgem possíveis caminhos para a consolidação da prática leitora como valor agregado da educação integral, ressaltando o imprescindível papel do incentivo e da mediação da família e da escola.
Palavras-chave: Afetividade; Anos Iniciais; Letramento.
ABSTRACT
Reading, a highly significant activity in our society, is fundamental to human development. Thus, we understand that the right to read is one of the basic pillars that can ensure the exercise of citizenship. For this reason, we intend to reflect on aspects that interfere with the dynamics of the act of reading. This work is part of the Research Project “Direito à Leitura” and aims to analyze the perception of students in the Early Years of Elementary Education at a public school in Santa Catarina, Brazil. This study used a mixed methodology, which involved obtaining quantitative information and correlating it with theoretical reflections on reading. The results indicate that a large part of students in the early stages of schooling enjoy the act of reading. Furthermore, for the observed group of students, the analyzed data shows that the home environment is the space most commonly used for reading practice and that its main purpose related to reading is entertainment. We conclude that initial contact with reading tends to be pleasant and associated with affective influences and the home environment, considering that we address the objectives of reading practice in school based on the dichotomy between the utilitarian goals of reading and the playful appreciation of the activity. From this, possible pathways emerge for consolidating reading practice as an added value in comprehensive education, highlighting the essential role of family and school encouragement and mediation.
Keywords: Affection; Early Years; Literacy.
1. Introdução
A leitura é um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento pleno da cidadania em qualquer sociedade. Ao fornecer acesso ao conhecimento, às ideias e às perspectivas diversas, a prática da leitura capacita os indivíduos a se engajarem de forma crítica com o mundo ao seu redor. Desde compreender os direitos e deveres civis até participar ativamente da vida em sociedade, a habilidade de ler e interpretar textos é essencial para o exercício pleno da cidadania. Além disso, a leitura estimula o pensamento crítico, a empatia e a capacidade de compreender diferentes pontos de vista, contribuindo para a formação de cidadãos informados, conscientes e atuantes. “Quanto a habilidades relacionadas ao pensamento crítico, a leitura é um grande estimulante, pois nos desafia a analisar, avaliar e interpretar informações de maneira objetiva.” (COSTA JÚNIOR et al., 2023, p. 11).
Corroborando esse argumento, Brito et al. (2023), destaca o papel fundamental da leitura para a aprendizagem significativa e o desenvolvimento do pensamento crítico. No mesmo sentido, Santos e Alves (2018), apresentam a capacidade de leitura como geradora de autonomia e facilitadora da inclusão do indivíduo na sociedade. Logo, percebe-se que a leitura é uma competência que necessita de atenção e incentivo por parte do Estado e da família, pois terá relevância decisiva no desenvolvimento das pessoas individualmente e no conjunto da sociedade.
Ao considerarmos Failla (2021) em “Retratos da Leitura no Brasil”, pesquisa realizada pelo IBOPE Inteligência, em que é possível identificar uma queda no número de leitores no país, demonstrando que a escolarização não garante hábitos de leitura. Mesmo que a queda registrada seja considerada pequena em seu percentual, é preciso levar em consideração esses dados quando tratamos do desenvolvimento das competências leitoras, – pois, segundo Failla (2021, p. 07) é “[…] urgente melhorar esse ‘retrato’ − transformar o Brasil em um país de leitores é desafio de toda a sociedade brasileira”.
O desafio é de toda sociedade, contudo, cabe a escola importante papel nesse cenário, pois a mesma pesquisa aponta o acréscimo de leitores entre o grupo de estudantes de 5 a 10 anos de idade que passa de 82% para 86% (Failla, 2021). Esse dado nos leva à reflexão acerca desses leitores para que a partir do conhecimento de suas particularidades, professores e demais profissionais da educação disponham de mais recursos para o fomento à leitura na escola.
A leitura na escola inicia com o processo de alfabetização, parte do princípio da decodificação e chega a níveis de maior complexidade, proporcionando o desenvolvimento de habilidades derivadas que alcançam as mais diferentes áreas de conhecimento. De acordo com Fonseca (1999), o processo de alfabetização é composto pelos processos de decodificação visual de letras e palavras, ou seja, o reconhecimento dos símbolos do alfabeto, também da identificação visuo-auditiva, além da correspondência símbolo-som, integração visuo-auditiva e significação, ou seja, a apropriação de sentido. Depreendemos daí que é uma experiência complexa e que demanda empenho do aprendiz.
De acordo com Martins, Carvalho e Dangió (2018, p. 339), “[…] a alfabetização, de partida, é uma conquista condicionada pelo processo de formação de um psiquismo complexo, tipicamente humano, cujo principal atributo se revela na capacidade de abstração”. Mendes, Siqueira e Oliveira (2023), afirmam que esse é um trabalho que demanda muita dedicação por parte do docente, que é complexo e maravilhoso, pois permite o desenvolvimento de outras habilidades durante o aprendizado. Assim, evidencia-se, mais uma vez, a relevância do tema e a necessidade constante de estudos que busquem a compreensão dos aspectos pertinentes ao seu desenvolvimento.
Diante do exposto supracitado, torna-se extremamente relevante a reflexão sobre as características de alunos-leitores, pois ao apresentar aspectos importantes de seu perfil comportamental em relação à leitura no que se refere ao gosto, motivações e locais de leitura. E desse modo, contribuir com a construção de práticas educativas, de maneira a incentivar os professores a buscarem estratégias pedagógicas para estimular o aprimoramento de habilidades leitoras entre os estudantes.
2.FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 Leitura: Precioso Prazer
Ler pode ser muito prazeroso. Tradicionalmente relacionada às tarefas escolares, a leitura pode ser vista como tarefa mecânica e operacional para atividades corriqueiras, mas, pode também despertar satisfação, alegria e uma série de sentimentos agradáveis que conquistam muitos adeptos. A aquisição da competência da leitura e o prazer que emana da capacidade de entendimento e significação dos códigos no papel são notáveis, de modo especial, nos primeiros contatos. Proust (2003, p. 9), descreve suas primeiras experiências de leitura como extremamente prazerosas, segundo o autor talvez, “[…] não haja na nossa infância dias que tenhamos vivido tão plenamente como aqueles que pensamos ter deixado passar sem vivê-los, aqueles que passamos na companhia de um livro preferido”.
No que se refere ao desenvolvimento do gosto pela leitura, a interação tem papel crucial, como aponta o estudo de Brito et al. (2018), para quem os sujeitos a partir de interações diversas na escola, na biblioteca e principalmente com a família desenvolvem a prática da leitura e usufruem dos benefícios dela advindos. A referida interação e exposição a materiais de leitura por si só, não assegura o incentivo e o desenvolvimento do gosto pela leitura, ela precisa ser mediada por uma relação de afetividade, como defende Freire (2018), a leitura precisa ser um ato de amor. Nesse sentido, Orlando et al. (2018), destaca que toda interação é permeada por aspectos afetivos, assume que leitores assíduos e proficientes tiveram uma experiência mediada por conteúdos afetivos positivos e que esses resultaram no desenvolvimento de seu gosto pela leitura. Ainda segundo os autores, dentre os sujeitos investigados pela pesquisa, diversos atribuem aos familiares, destacadamente à mãe e ao pai, as impressões positivas em suas primeiras lembranças relacionadas à leitura.
Outro aspecto relevante da mesma pesquisa, em Orlando et al. (2018), é apontado na declaração de uma participante ao afirmar que, às vezes, o conteúdo das leituras não é lembrado, contudo seu relato enfatiza os aspectos relativos à interação com a mãe durante a leitura. Souza (2005) afirma que o fato de o leitor não lembrar o conteúdo das leituras, mas recordar detalhes das cenas de leitura, indica que a interação com a figura do mediador foi o aspecto mais marcante dessa situação, o que reforça a importância do vínculo e da mediação.
A respeito da necessidade de mediação, Orlando et al. (2018) destacam a importância desse recurso para o desenvolvimento inicial e a consolidação da leitura como prática na vida do leitor e ressalta que, no decorrer do tempo, a atividade se tornará mais autônoma, intrínseca e prazerosa. Nesse sentido, Leite (2010, p.37) afirma que “[…] a qualidade da mediação desenvolvida determina, em parte, o tipo de relação que se estabelece entre sujeito e objeto”, o que nos leva a confirmação da importância de uma mediação positiva.
2.2 Ambiente de Leitura
Com objetivo de definir a expressão que intitula essa sessão, recorremos ao Dicionário Houaiss (2011), onde o substantivo ambiente é caracterizado como: “1. recinto, espaço em que se está ou em que se vive; 2. conjunto de condições que envolve as pessoas; atmosfera; e 3. conjunto de aspectos de um meio social, natural ou histórico em que se situa uma ação A partir disso, buscaremos relacionar o sentido de ambiente com a prática da leitura para melhor compreendermos as particularidades dessa relação e o faremos sob a premissa de Biscolla (1991) que defende a necessidade de ambientes socioafetivos para favorecer a aprendizagem, considerando os sentimentos e emoções das crianças, bem como sua bagagem cultural e contexto social.
O ambiente é um fator crucial na promoção do hábito de leitura. Nas escolas, esses espaços são projetados com o intuito de estimular a prática da leitura entre os estudantes, sendo uma prática frequente, como evidenciado por Souza e Cosson (2018). Eles são concebidos para serem motivadores, oferecendo estímulos visuais relacionados à leitura e criando uma atmosfera propícia para a exploração e o contato com os livros. Os entusiastas da leitura frequentemente expressam preferência por essa organização, mencionando o apelo sensorial dos livros e a sensação de acolhimento proporcionada pelo ambiente.
Estudos como os de Mendes e Velosa (2016) enfatizam a importância da organização do espaço na interação das crianças com materiais de leitura, ressaltando a relevância de oferecer materiais adequados a cada fase do desenvolvimento infantil. A seleção cuidadosa e a apresentação afetiva desses materiais contribuem para o encantamento dos leitores, fortalecendo o hábito de leitura, conforme mencionado por Borges Proust (2003). Essa estratégia busca aproximar os estudantes da prática de leitura, facilitando-lhes o acesso a espaços atrativos e confortáveis.
No entanto, em sentido mais amplo, observamos que o ambiente de leitura não se limita à escola. Assim como em Proust (2003, p. 10),
Quem, como eu, não se lembra dessas leituras feitas nas férias, que íamos escondendo sucessivamente em todas aquelas horas do dia que eram suficientemente tranquilas e invioláveis para abrigá-las. De manhã, voltando do parque, quando todos “tinham ido fazer um passeio”, eu me metia na sala de jantar, onde, até a ainda distante hora do almoço, ninguém, senão a velha Félicie, relativamente silenciosa, entraria, e onde não teria como companheiros de leitura mais do que os pratos coloridos pendendo nas paredes, o calendário cuja folha da véspera havia sido há pouco arrancada, o pêndulo e o fogo que falam sem pudor que se lhes responda, e cujos suaves propósitos vazios de sentido não substituem […]
Tantos outros leitores escolhem os mais diversos locais para encantar-se com a leitura, o que pode ocorrer nos mais diversos espaços. Dentre esses, destaca-se o ambiente doméstico.
Cabe destacar que a influência familiar desempenha um papel crucial na promoção do hábito de leitura. Esse ambiente não se restringe ao espaço físico, mas também inclui a subjetividade manifestada em hábitos e valores que podem ser determinantes para favorecer ou não a leitura. Estratégias como a contação de histórias ou a leitura em voz alta são fundamentais para estabelecer vínculos afetivos positivos com a leitura desde cedo, como destacado por Dresch et al. (2016)
O ambiente de aprendizagem em casa (AAC) destaca o impacto do estímulo doméstico na promoção de atividades de letramento lúdico, reconhecendo o papel essencial da família nesse processo.
2.3Ler para quê?
Historicamente presente nas instituições de ensino, a leitura e as habilidades dela decorrentes são na opinião de (Martins, 2018, p. 338) “[…] a mais importante função da escola, já que outros processos de aprendizagem são dependentes dela.” O que nos revela também a intencionalidade na seleção de textos e temas de leitura ao longo dos anos. De acordo com Corsino (2015), foi a partir do século XX que a linguagem dos textos infantis deixou de focar na mensagem para explorar a função pedagógica dos escritos.
Conforme os autores Souza e Cosson (2018) a leitura literária no Brasil encontra-se polarizada entre o objetivo utilitário e o idealista. Segundo os autores, o primeiro prioriza a leitura como prática pedagógica que auxilia a apreensão de conceitos e serve de pretexto para a abordagem de algum tema específico, de modo que os textos são selecionados com foco no objetivo da aula. Esse objetivo encontra-se muito presente em fábulas e contos infantis. Por outro lado, segundo Souza e Cosson (2018), há uma vertente denominada Idealista que se opõe à função didática da leitura e apregoa sua livre utilização, ou seja, a leitura por prazer, desvinculada de qualquer objetivo moralizante ou didático. Para tanto, seus defensores fundamentam-se na singularidade da relação entre cada leitor e cada texto, contextos de leitura e bagagens culturais que tornam únicas as relações entre leitor e obra.
De todo o modo, ambas as abordagens demonstram importantes contribuições da leitura para o convívio com a sociedade letrada em que vivemos. Tanto o aprendizado funcional e utilitário advindo da decodificação de signos para o entendimento de uma mensagem ou instrução, quanto o deleite individual e abstrato da fruição de uma obra literária são importantes, principalmente quando empregados consciente e alternadamente de modo que os indivíduos possam desfrutar das contribuições da leitura em sua vida de acordo com seus propósitos e necessidades, exercendo o senso crítico e a autonomia que a habilidade leitora plena desenvolve e esse precisa ser o foco da escola.
Ao tratar da leitura para o desenvolvimento infantil, destaca-se o estímulo a reações decorrentes da interação com a leitura geradora de autonomia. De acordo com Klein (2018), por meio da leitura, as crianças descobrem o mundo individual ou coletivamente, descobrem, trocam experiências e expõem suas emoções. E nessa interação passam a reagir ao que leem De acordo com Santos e Alves (1994) ¨A participação do ambiente constitui-se num aspecto diretamente ligado à questão do incentivo ao hábito de leitura. As pessoas que cercam a criança ou o adolescente podem favorecer ou não tal comportamento, destacando-se a família (composta por pai, mãe e irmãos) e a escola, que mantém um contato constante e permanente e que condicionam as mais diversas vivências nessas primeiras etapas da vida. “
Assim também, observa-se que a satisfação encontrada na leitura, assemelha-se àquela encontrada nas brincadeiras. É possível inferir que essa relação seja proveniente da abordagem integradora em que as atividades lúdicas integradas à leitura exercem influência sobre crianças. Como depreendemos das observações descritas por Neves et al. (2015) ao relatar a metodologia de uma professora de educação infantil de Belo Horizonte a qual inseriu a leitura às atividades rotineiras das crianças de modo a não separar brincadeiras de atividades de letramento, rompendo assim com a distinção entre elas. Diante da observação, os mesmos autores (Neves et al., 2015, p. 220) declaram que os momentos de brincadeira foram transformados em eventos de letramento e que:
Observou-se, então, que, ao brincar, as crianças incorporaram a leitura e a escrita em seus jogos, explorando ativamente os usos, as funções e os significados da escrita, desafiando ou desconstruindo a dicotomia entre o aprender e o brincar implicada nas discussões sobre as especificidades da educação infantil e do ensino fundamental e na realização de um trabalho descontextualizado com a escrita.
Esse exemplo de introdução à leitura corrobora uma prática de introdução à leitura não coercitiva, que se relaciona à aprendizagem significativa. Sobre a função pedagógica da leitura (Klein, 2018, [s.p.]) declara:
Ao buscarmos a leitura como recurso pedagógico, procuramos encontrar nas crianças uma conexão com a realidade e a imaginação e é claro com a aprendizagem. As histórias infantis proporcionam atividades que objetivam a interdisciplinaridade na alfabetização, tornando menos cansativa e mais estimulante.
Sob essa perspectiva, estabelecem-se estratégias e abordagens que visem a promoção e consolidação da prática de leitura como ferramenta pedagógica para a construção de conhecimentos significativos que, numa via de mão dupla, estarão em constante colaboração com a leitura também por prazer e estabelecendo assim um continuum positivo entre a utilidade e o prazer da leitura.
3. METODOLOGIA DA PESQUISA
Como parte de uma pesquisa maior em andamento ligada ao projeto de pesquisa “Direito à Leitura” (CAAD 74031623.8.0000.5616), neste trabalho, optamos por investigar estudantes dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental de uma escola de Educação Básica no interior de Santa Catarina, município de Maravilha. A seleção do nível de ensino foi motivada por dados da pesquisa intitulada “Retratos da Leitura no Brasil”, que apontaram aumento no número de leitores na faixa etária entre 05 e 10 anos, correspondente ao período de transição da pré-escola para Ensino Fundamental I e o seu curso de cinco anos.
Quanto ao método, a princípio, esta investigação se caracteriza de tipo descritivo porque descreve a percepção dos valores a partir da análise de dados com a utilização do software estatístico SPSS. Mas, também se destaca por uma abordagem qualitativa, considerando as percepções de Minayo e Deslandes (2007, p. 21),
A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares […], ou seja, trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e atitudes […], pois o ser humano se distingue não só por agir, mas por pensar sobre o que faz e por interpretar suas ações dentro e a partir da realidade vivida e partilhada com seus semelhantes.
As discussões dos dados coletados serão contextualizadas com referências teóricas pertinentes e considerações dos autores desse estudo, embasados por sua experiência docente.
3.1 Caracterização dos sujeitos
Neste estudo, realizamos um recorte focalizado nas respostas dos alunos dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, com o intuito de observar especificamente a prática de leitura nos primeiros anos escolares. Essa seleção foi motivada por dados decisivos de uma pesquisa nacional intitulada “Retratos da Leitura no Brasil”, que apontou um aumento no número de leitores na faixa etária entre 05 e 10 anos, correspondente ao período de transição da pré-escola para os anos iniciais do Ensino Fundamental
O instrumento escolhido para a coleta de informações foi um questionário online, aplicado durante o último bimestre de 2023. Foram convidados 253 alunos do Ensino Fundamental (1º ao 5º) anos, desses, 119 estudantes efetivamente responderam às questões, após retornarem com termo de livre consentimento e autorização do responsável assinados. Este questionário foi validado por especialistas para correção e adequação de termos e sua posterior aplicação, a distribuição dos respondentes por gênero e ano consta na tabela 1 a seguir.
Tabela 1: Sujeitos da pesquisa
| ANO | ALUNOS | ALUNAS | TOTAL |
| 1º | 7 | 8 | 15 |
| 2º | 13 | 11 | 24 |
| 3º | 16 | 18 | 34 |
| 4º | 14 | 15 | 29 |
| 5º | 11 | 6 | 17 |
| TOTAL | 61 | 58 | 119 |
4. Resultados da pesquisa
4.1 Você gosta de ler?
A partir da resposta de 119 estudantes dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, obtivemos os seguintes resultados: Quando perguntados se gostam de ler, 46,2% dos estudantes responderam que sim, 48,7% dos estudantes responderam às vezes e 5,1% dos estudantes responderam que não. Esse dado reflete uma realidade em que o gosto pela leitura é apontado como positivo, ainda que relativo por alguns estudantes, apresentando um número pequeno de desaprovação.
Figura 1 – Respostas à pergunta “Você gosta de ler?”

O estudo indica que há, entre as crianças e jovens respondentes ao questionário aplicado, alta incidência pelo gosto da leitura. Considerando que o gosto pela leitura trata de uma apreciação ou fruição prazerosa e não da condição que torna o indivíduo capaz de decodificar os símbolos no papel, assim como afirma Bomeny (2009, p. 22) “não há qualquer relação automática entre alfabetização e gosto ou hábito de leitura” . Os respondentes do questionário encontram-se, em maioria, alfabetizados, contudo, nem todos declaram gostar da leitura.
Considerando o grupo que relativiza essa satisfação ao optar pela resposta às vezes e os que assumem não gostar da atividade, nos perguntamos: Por que esses alunos, frequentadores da mesma escola, não descobriram o prazer da leitura como os que responderam afirmativamente? Para Bomeny (2009, p. 27),
A leitura como fruição, como prazer, nos reporta ao sentido mais refinado do processo de aprendizado. Leitura como estímulo e alimento da alma, de cultivo da interioridade, daquilo que Ortega y Gasset tratou como a viagem ao universo próprio, singular, não massificado. A expressão desse tipo de cultivo é, indelevelmente, a experiência solitária, individualizada, intraduzível e intransferível. Compartilhada em cumplicidade com iguais e poucos.
Ainda que esse seja um prazer de poucos, diante da pertinência da leitura competente, ou seja, aquela que nos permite o desenvolvimento do senso crítico, a aptidão de reconhecimento do entorno e a cidadania no sentido completo da palavra, não podemos deixar de nos perguntar como ampliar o número de pessoas que desfrutem desse prazer e colham os frutos dessa habilidade essencial à vida atual, pois consideramos que um mundo melhor é um mundo com mais equidade, no qual os direitos universais sejam respeitados. Dentre esses, o acesso à leitura defendido por Candido (2004) como condição indispensável a nós mesmos e também ao próximo.
A leitura defendida por Candido (2004) aquela que humaniza, que faz viver e que nos transporta à ficção e poesia está relacionada ao gosto, prazer e até à compulsão de conhecer, de abstrair e aprender. Nas palavras de Bomeny (2009, p. 28), “ler é aprendizado” e se é aprendizado, pode e deve ser garantido a todos.
Nessa análise, partimos de dados que nos levam a inferir que há, entre os estudantes na sua grande maioria, a apreciação da leitura e a pouca rejeição em relação à atividade. Os resultados demonstram que na primeira fase do ensino formal há a presença do encantamento e do fascínio que a abstração da leitura relacionada ao descobrimento, à diversão e a sensação de bem-estar, prazer e aventura que a leitura provoca e também uma necessidade para elaborarem sua relação com o mundo. Para Jobim e Souza (1996, p. 148)
Na infância, a imaginação, a fantasia, o brinquedo não são atividades que podem se caracterizar apenas pelo prazer que proporcionam. Para a criança, o brinquedo preenche uma necessidade; portanto a imaginação e a atividade criadora são para ela, efetivamente, constituidoras de regras de convívio com a realidade.
A leitura tem historicamente se mostrado como importante ferramenta para estabelecer, relação com o que ainda não foi vivido e, portanto, com a aprendizagem. O contato com realidades alternativas e a possibilidade de imersão no mundo da fantasia atrai o gosto e atenção de quem busca compreender o seu entorno. Percebemos essa relação também nas declarações de Proust ( 2003) a sua busca pelo prazer solitário de estar a sós em uma história e nos livros.
É possível afirmar que o gosto pela leitura está presente na vida de muitas crianças e adolescentes, mesmo diante de tantas outras formas de recreação e diversão. Muitos veem nessa prática, uma forma de passar um tempo agradável, divertir-se e também de explorar o mundo. Diante disso e dos conhecidos benefícios da leitura para o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes, a escola pode utilizar-se dessas características e preferências para o desenvolvimento de atividades planejadas que estimulem ainda mais a permanência da leitura como hábito e como fonte de prazer. Mas, também precisa agir no sentido de ofertar aos estudantes práticas de leitura que venham de encontro às características do público em questão. Conhecendo preferências e particularidades para utilizá-las como apoio para o desenvolvimento das demais atividades pedagógicas. Importante ressaltar que um hábito instalado no comportamento de um jovem estudante, tende a permanecer pelos anos seguintes e se incorporar à sua prática diária.
Diante de inúmeras tentativas de pais e professores para consolidar o hábito e gosto pela leitura como parte da rotina dos estudantes, sugerimos que a leitura seja empregada com estratégia voltada ao interesse por temas variados, com liberdade de horário e local de realização, porém que seja atrelada a atividades complementares anteriores e posteriores à leitura propriamente dita, ou seja, da introdução à contextualização e relações produzidas pelo leitor com seu entorno. Dessa forma, a leitura contribuirá significativamente como uma ferramenta para auxiliar no processo de desenvolvimento ou manutenção e aprofundamento das habilidades comunicativas.
4.2 Você gosta de ler para?
Sobre o propósito da leitura, os mesmos 119 estudantes responderam da seguinte forma: 26,9% deles afirmam fazer a leitura para conhecer o mundo, outros 31,1% optaram pela alternativa que indicava o propósito da leitura para o estudo e para realização de provas enquanto outros, equivalentes a 42,0% dos respondentes apontam o propósito da diversão e distração como objetivo da sua leitura.
Figura 2 – Respostas à pergunta “Você gosta de ler para?”

As opções apresentadas aos estudantes buscavam diferenciar o principal propósito de leitura dos respondentes entre o utilitário (estudar e fazer provas), uma das principais aplicações da leitura na vida dos estudantes a curiosidade e busca do conhecimento (conhecer o mundo) e o entretenimento (divertir, distrair). Os resultados evidenciam que há um número significativo que faz uso da função utilitária da leitura (37 alunos) do total de respondentes, outros (32) buscam na leitura uma forma de conhecimento, mas é com objetivos lúdicos que a maioria (42,0%) dos estudantes se identifica.
Essas informações nos levam a perceber que a leitura permanece sendo uma importante fonte de lazer para crianças e adolescentes que embora vivam num período repleto de tecnologias em que as diversões digitais ocupam grande destaque, elas ainda sabem apreciar a leitura como fonte de diversão e estímulo à imaginação. Nas palavras de Laplatine e Trindade (2003, p. 79) que afirmam “o imaginário é um processo cognitivo no qual a afetividade está contida, traduzindo uma maneira específica de perceber o mundo, de alterar a ordem da realidade”, percebemos a conexão entre as histórias de ficção ou mesmo apenas de realidades desconhecidas do leitor como potenciais fontes de entretenimento.
A relação entre a leitura e o entretenimento está presente ainda nas abordagens lúdicas que professores e instituições de ensino utilizam para seduzir para o mundo da leitura. Para Vygotsky (2007), a partir do brincar ocorre a contribuição do processo de desenvolvimento do indivíduo, uma vez que, ao interagir com o brinquedo, a criança ativa sua esfera cognitiva e não gera respostas a estímulos puramente exteriores.
Despertar e manter nesses jovens estudantes a apreciação pela fruição da atividade da leitura, com a atenção voltada aos livros, permitindo-se a concentração e por meio dela o contato com tantas outras experiências e formas de expressão serão incentivados ao consequente contato com o outro que modifica sua própria compreensão da realidade. Diante disso, há que se destacar a importância do estímulo e da valorização e das atividades que permitam aos jovens estudantes essa descoberta e o seu usufruto.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante de um tema tão abrangente, é possível considerar que o presente estudo traz contribuições importantes no sentido de evidenciar a intrínseca relação entre a leitura, o afeto e o prazer derivados do ambiente e das condições favoráveis à prática da leitura. O desafio que se apresenta a partir de tais considerações é o de conciliar práticas pedagógicas que se utilizem desses princípios para o desenvolvimento e a consolidação de competências leitoras.
Para tanto, os aspectos aqui discutidos poderão inspirar a criação de espaços e momentos em que a leitura seja vinculada a atividades afetivas e prazerosas. A efetivação de tais ações encontra entraves no próprio sistema de ensino.
Esse pode ser um caminho aos que buscam incentivar e aprimorar as habilidades leitoras de crianças e adolescentes, seja no âmbito familiar ou escolar. Proporcionar as condições físicas do ambiente, o acesso e oferecimento da leitura lúdica apontam para o interesse e preferência dos respondentes deste questionário e podem indicar estratégias para alcançar outras crianças e adolescentes que ainda não usufruem da leitura com satisfação e interesse.
A partir dessas constatações, percebemos, a importância de compreender os processos relacionados à leitura para conhecermos e nos adaptarmos aos novos formatos sem perder os encantos e múltiplos benefícios da leitura para a sociedade. Enquanto pesquisadores e professores, nossa tarefa é ainda mais desafiadora, pois cabe-nos grande responsabilidade sobre os rumos da leitura no país.
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https://periodicos.educacaotransversal.com.br/index.php/rechso/article/download/106/108/265. Acesso em: 03 nov. 2025. Excluir o trecho sobre SILVA
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