GESTÃO DO RISCO OCUPACIONAL ASSOCIADO A NEISSERIA MENINGITIDIS

Occupational Risk Management Associated with Neisseria meningitidis

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202602082140


Ana Carolina Barge1, Mário Peixoto, Juan Fonnegra, Elvira Perea, Ana Rita Ribeiro, Lyda Pena, Leany Almeida, Rita Lopes, Kamal Mansinho


Resumo

A doença meningocócica, causada pela bactéria Neisseria meningitidis, é uma infeção aguda grave, de evolução rápida e elevada morbimortalidade, constituindo uma emergência em saúde pública e um risco ocupacional relevante. Apesar da diminuição da incidência em Portugal, persistem casos esporádicos e situações com potencial epidémico, especialmente em contextos hospitalares. Profissionais de saúde são particularmente vulneráveis devido à exposição a doentes infetados, secreções respiratórias e procedimentos geradores de aerossóis.
Este trabalho sistematiza a atuação pós-exposição ocupacional a Neisseria meningitidis, definindo critérios para identificação de exposições significativas e medidas de prevenção. Destaca-se o papel do Serviço de Segurança e Saúde no Trabalho na vigilância epidemiológica, notificação de casos, rastreio de contactos e articulação com o Grupo de Coordenação Local do Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistências aos Antimicrobianos.
O protocolo aborda mecanismos de transmissão, história natural da doença, apresentação clínica e fatores de risco. Define-se exposição significativa como contacto próximo sem proteção adequada, contacto direto com secreções orofaríngeas ou procedimentos de elevado risco, indicando profilaxia pós-exposição nas primeiras 24 horas. Incluem-se recomendações de vacinação para grupos de risco e procedimentos de seguimento clínico, como vigilância de sintomas e notificação de doença profissional.
A metodologia baseou-se na análise de literatura dos últimos quinze anos, complementada por um artigo de 1984, recorrendo a fontes como UpToDate, PubMed e o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, permitindo a construção de um protocolo baseado em evidência científica para reduzir o risco ocupacional e prevenir surtos em instituições de saúde.

Palavras-chave: Neisseria meningitidis. Doença meningocócica. Exposição ocupacional. Profissionais de saúde. Quimioprofilaxia

Abstract

Meningococcal disease, caused by the bacterium Neisseria meningitidis, is a severe acute infection with rapid progression and high morbidity and mortality, representing a public health emergency and a significant occupational risk. Despite a decline in incidence in Portugal, sporadic cases and situations with epidemic potential continue to occur, particularly in hospital facilities. Healthcare professionals are especially vulnerable due to exposure to infected patients, respiratory secretions, and aerosol-generating procedures.
This work systematizes the post-exposure management of Neisseria meningitidis in occupational facilities, defining criteria for identifying significant exposures and preventive measures. The central role of the Occupational Health and Safety Service is highlighted in epidemiological surveillance, case notification, contact tracing, and coordination with the Local Coordination Group for Infection Prevention and Control and Antimicrobial Resistance.
The protocol addresses transmission mechanisms, the natural history of the disease, clinical presentation, and risk factors. Significant exposure is defined as close contact without adequate protection, direct contact with oropharyngeal secretions, or involvement in high-risk procedures, indicating post-exposure prophylaxis within the first 24 hours. Recommendations for vaccination in at-risk groups and clinical follow-up procedures, including symptom monitoring and occupational disease reporting, are also included.
The methodology was based on a review of literature from the past fifteen years, complemented by a seminal 1984 article, using sources such as UpToDate, PubMed, and the Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. This approach allowed the development of an evidence-based protocol aimed at reducing occupational risk and preventing outbreaks in healthcare institutions.

Keywords: Neisseria meningitidis; Meningococcal disease; Occupational exposure; Healthcare professionals; Chemoprophylaxis

Enquadramento

A doença meningocócica é uma doença grave, de notificação obrigatória em Portugal, causada por uma bactéria Gram negativa, a Neisseria meningitidis (Nm). É considerada a principal causa de meningite bacteriana em crianças e adultos jovens nos Estados Unidos, com uma taxa de mortalidade global de 13%1. É a 2º causa mais comum de meningite bacteriana adquirida na comunidade em adultos. Em Portugal, a incidência global de doença invasiva por meningococo por 100 mil habitantes tem vindo a decrescer nos últimos anos, sendo que em esta variou entre1,99 casos, em 2003, e 0,39 casos, em 20202. Esta diminuição deve-se, sobretudo, à implementação de políticas de vacinação. Atualmente em Portugal existe cobertura no Programa Nacional de Vacinação (PNV) com as vacinas contra Neisseria meningitidis dos grupos B e C.

Existem múltiplos. serotipos de Nm, sendo em Portugal, os mais associados a doença meningocócica o grupo B (o mais frequente), C (com diminuição a partir de 2004), Y (com um pico em 2011) e X.3.

O contato direto com gotículas (0.7-1pm) é a mais frequente via de transmissão, favorecido pela presença de secreções nasofaríngeas, tosse, espirros ou beijos. No entanto, estão descritos raros casos onde a Nm pode ser inoculada acidentalmente por via parentérica no laboratório ou durante a manipulação de amostras sanguíneas. O período de incubação varia entre 1 e 10 dias, mas de uma forma geral, não ultrapassa os 4 dias4.

Para o desenvolvimento da doença é necessária a colonização da nasofaringe pela Nm. Após a colonização os indivíduos podem ser portadores assintomáticos, durante longos períodos de tempo (1-16 meses). Durante este período, podem ser contagiosos para indivíduos não colonizados. A contagiosidade depende de fatores relacionados com a Nm, como o hospedeiro e o ambiente, sendo que geralmente o risco de contágio é nulo 24h após o início de terapêutica eficaz.

Existem diversas situações nas quais há um risco acrescido de desenvolver a doença meningocócica, nomeadamente o estado de portador crónico, infeção por VIH, deficiência de complemento, uso de Eculizumab, homens que fazem sexo com homens. Além destes, os profissionais de saúde também são considerados um grupo vulnerável, devendo garantir-se a realização de uma profilaxia pós-exposição adequada de forma a prevenir o desenvolvimento da doença.

Apresentação clínica e história natural da doença

A doença meningocócica pode manifestar-se sob três síndromes: meningite; meningite com meningococemia e meningococemia sem evidência clínica de meningite. A apresentação clínica típica carateriza-se pelo início súbito de febre, náuseas, vómitos, cefaleia, confusão, rigidez da nuca, fotofobia e mialgias5. Num estudo de coorte, a tríade clássica de febre, rigidez da nuca e alteração do estado de consciência apenas se observou em cerca de 27% dos casos comparativamente a 58% dos casos de meningite pneumocócica6. Esta doença ocorre tipicamente no final do lnverno, sendo facilmente confundida com uma síndrome gripal, levando ao atraso no seu diagnóstico. Por se tratar de uma doença com manifestações clínica variáveis e relativamente rara, é necessário um elevado grau de suspeição para um diagnóstico atempado. A progressão da doença é normalmente rápida, com deterioração clínica grave em poucas horas.

Encaminhamento para o SSST

Todos os casos identificados de doentes positivos para Nm nos diferentes serviços da instituição de saúde, devem ser notificados ao respetivo SSST, pelos responsáveis do caso ou respetivas chefias médicas e/ou de enfermagem. Igualmente, o SSST mantém contacto e colaboração com o Grupo de Coordenação Local do Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistências aos antimicrobianos (GCL-PPCIRA), que é responsável pelo rastreio dos doentes envolvidos na cadeia de transmissão intra-hospitalar.

Rastreio de contacto

O rastreio de contatos deve ser efetuado sempre que tenha ocorrido exposição significativa a um doente com infeção por Neisseria meningitidis, sem que tenham sido tomadas medidas de controlo de infeção adequadas de forma a identificar os contatos com exposição significativa. Após tomar conhecimento do caso, o SSST inicia o rastreio dos possíveis contatos, realizando a identificação dos PS expostos junto do(s) serviço(s) afetado(s)/exposto(s). As chefias médica ou de enfermagem do(s) respetivo(s) serviço(s) devem preencher a Tabela de Contactos e encaminhar o mais rapidamente possível para a equipa médica do SSST do respetivo hospital. O SSST encaminha o inquérito para Avaliação da Exposição para os profissionais identificados como contactos, que deverá ser respondido o mais rapidamente possível.

Critérios de Exposição Significativa

Considera-se exposição significativa o profissional que cumpra pelo menos um dos seguintes critérios de exposição significativa: contato superior a 8 horas, sem equipamento de proteção individual adequado (máscara cirúrgica4) e com uma proximidade significativa (inferior a um metro); contato direto ou manipulação de secreções orais do doente nos 7 dias antes do início de sintomas e até 24 horas após o início de antibioterapia, sem máscara FPP2 e/ou contato envolvendo procedimentos técnicos de risco acrescido (laringoscopias/broncoscopias, aspiração de secreções, entubação, nebulizações, autópsia), sem máscara FPP2.

Profilaxia pós-exposição

A PPE é recomendada para os PS que cumpram pelo menos um dos critérios de exposição significativa. Após identificados os PS com indicação para PPE, esta deve ser iniciada o mais precocemente possível, idealmente nas primeiras 24 horas após a identificação do doente fonte. A PPE para os PS com exposição significativa é dispensada pela respetiva farmácia, devendo ser levantada pelo PS. 

A realização de culturas orofaríngeas ou nasofaríngeas para averiguar a necessidade de iniciar quimioprofilaxia não está recomendada2.

  Os esquemas recomendados PPE estão descritos na Tabela 1.

Tabela 1. Quimioprofilaxia da doença meningocócica.

*Em profissionais de saúde grávidas, a rifampicina e a ciprofloxacina estão contra-indicadas. A Rifampicina pode provocar alterações da cor das secreções corporais (urina, suor e Iágrimas), tornando-se alaranjadas. Por isso, não está recomendado o uso de lentes de contacto durante a sua utilização; além disso, este fármaco interage com anticoagulantes e anticoncetivos orais diminuindo a sua eficácia pelo que devem- se tomar medidas adequadas.

**Em caso de profissionais de saúde lactantes o uso da ciprofloxacina, é considerado seguro, com mínimo risco para o lactente.

Os contatos com exposição significativa que façam tratamento com inibidores da fração C5 do complemento (como Eculizumab e Ravulizumab) devem realizar a profilaxia com Azitromicina, e realizar também vacinação anti meningocócica, segundo recomendação do seu médico assistente3.

Vacinação antimeningocócica

A vacinação antimeningocócica nos profissionais de saúde não está recomendada como rotina. No entanto, existem recomendações para vacinação de certos grupos profissionais que têm um risco acrescido de doença meningocócica como: deficiência de complemento, VIH, asplenia anatómica/funcional, sendo que nestes casos, o SSST pode recomendar a vacinação contra Nm junto do médico assistente dos PS. Relativamente a profissionais que trabalhem rotineiramente com manipulação da Nm5 deve-se oferecer a vacinação antimeningocócica segundo o seguinte esquema recomendado:

Tabela 2. Adaptada da tabela de recomendações sobre vacinação meningocócica em idade anos com risco acrescido de doença meningocócica nos EUA (Meningococcal Vaccination Recs for Those 2 years at risk – UptoDate).

*Pacientes com risco acrescido de exposição que têm imunodeficiência que aumenta o risco de doença meningocócica devem receber uma 2º dose de vacinação primária.

Seguimento dos contactos de risco

Os trabalhadores identificados como contactos de risco, devem manter vigilância dos sintomas sugestivos de doença descritos anteriormente, durante pelo menos 10 dias após a exposição. No caso do trabalhador apresentar sintomatologia sugestiva, deverá recorrer ao Serviço de Urgência.

Declaração de doença profissional

No caso em que o trabalhador exposto a um caso positivo para Neisseira meningitidis, desenvolva doença meningocócica, deve ser realizada a notificação obrigatória na Plataforma SINAVE, pelo médico que faz o diagnóstico e, posteriormente, deverá comparecer a uma exame ocasional no SSST, para avaliação do estado de saúde, determinação da aptidão para o trabalho após doença, e participação de doença profissional após verificação de existência de nexo de causalidade com link epidemiológico no ambiente de trabalho.

Conclusão
A doença meningocócica continua a representar um risco significativo para os profissionais de saúde, devido à sua elevada morbimortalidade, evolução rápida e potencial epidémico em contextos hospitalares. A gestão do risco ocupacional associado a Neisseria meningitidis exige uma abordagem estruturada, baseada na identificação precoce de exposições significativas, vigilância rigorosa e implementação atempada de medidas de prevenção, incluindo profilaxia pós-exposição e, quando indicado, vacinação.
O presente protocolo evidencia que a atuação eficaz depende da articulação entre o Serviço de Segurança e Saúde no Trabalho e os grupos de controlo de infeção, garantindo rastreio adequado de contactos, monitorização clínica e notificação obrigatória de casos. A definição clara de critérios de exposição significativa e a disponibilização de esquemas de quimioprofilaxia específicos permitem reduzir o risco de infeção, prevenir surtos intra-hospitalares e assegurar a segurança dos profissionais.
A prevenção mantém-se como pilar central da Medicina do Trabalho e Saúde Ocupacional, sendo crucial sensibilizar os trabalhadores para a adoção de procedimentos que minimizem a transmissão, identifiquem contactos de risco e orientem a intervenção imediata sobre profissionais expostos. Assim, a implementação de protocolos claros e baseados em evidência científica é essencial para mitigar os impactos da doença, proteger os trabalhadores e fortalecer a segurança sanitária em contexto ocupacional.

Referências bibliográficas

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1Formação: Mestrado Integrado em Medicina pela Universidade de Coimbra (2015-2021). Interna de Formação Geral no Hospital de Portimão (2022). Atualmente Médica Interna de Formação Específica em Medicina do Trabalho na Unidade Local de Saúde de Lisboa Ocidental (desde 2023).
Contactos: carolinabarge123@hotmail.com
Endereço postal: 2740-025

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