REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202603061224
Letícia Barreto Dias1
Matheus de Souza Freitas2
Suzanny Brito do Rosário³
Fabiana Paes Nogueira Timoteo4
RESUMO
Introdução. A Atenção Primária à Saúde (APS) é o eixo central do sistema de saúde brasileiro, reconhecida como porta de entrada do SUS e responsável pela coordenação do cuidado. Estruturada pela Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), tem nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) o principal ponto de atenção, oferecendo ações de promoção, prevenção, tratamento e reabilitação voltadas a todas as fases da vida. Sua operacionalização ocorre, principalmente, por meio da Estratégia Saúde da Família (ESF), que fortalece os princípios de universalidade, equidade e integralidade. Nesse contexto, a enfermagem assume papel essencial na efetividade e humanização do SUS. O enfermeiro, além do cuidado direto, exerce funções gerenciais, educativas e administrativas, regidas pela Lei nº 7.498/1986 e pela PNAB, consolidando sua autonomia técnica e científica. Na ESF, destaca-se como protagonista no cuidado familiar e comunitário, realizando consultas, aplicando protocolos clínicos, conduzindo ações de prevenção e liderando iniciativas educativas e de promoção da saúde. Assim, compreender a autonomia do enfermeiro na APS é fundamental para avaliar sua contribuição na qualificação do cuidado e fortalecimento do sistema de saúde. Objetivo. Compreender a autonomia do enfermeiro na Atenção Primária em Saúde. Metodologia. Trata-se de umarevisão integrativa da literatura, de abordagemquali-quantitativa, que busca compreender a percepção do enfermeiro sobre sua autonomia na Atenção Primária à Saúde (APS). Resultados. Foi observado majoritariamente a autonomia do enfermeiro em consultas de enfermagem principalmente as relacionadas a saúde da mulher, no exercício do cuidado com feridas e ostomias, incluindo gestão e liderança. Conclusão. A autonomia do enfermeiro vai além do cuidado técnico, abrangendo gestão, trabalho em equipe e tomada de decisão, com papel estratégico no cuidado integral e humanizado. Apesar dos avanços, ainda há limites impostos pela hierarquia do sistema e pela falta de valorização profissional. A escassez de estudos sobre o tema destaca a importância de compreender e ampliar a autonomia do enfermeiro na APS.
PALAVRA-CHAVE: Autonomia. Enfermeiro. Atenção Primária. SUS. Gestão.
1.INTRODUÇÃO
A Atenção Primária à Saúde (APS) compõe a rede poliárquica das Redes de Atenção à Saúde, sendo reconhecida como a porta de entrada preferencial e o eixo central dos sistemas de saúde. Atua como coordenadora do cuidado e ponto de maior proximidade com o território e a população adscrita, sendo estruturada no Brasil a partir das normas e diretrizes estabelecidas pela Política Nacional da Atenção Básica (PNAB), cujas premissas foram pactuadas em 2006, expressas na PNAB de 2011 e reafirmadas pela Portaria nº 2.436, de 21 de setembro de 2017. (GALVÃO et al., 2024).
Nesse contexto, a Unidade Básica de Saúde (UBS) representa o ponto de atenção prioritário, destinada à oferta de serviços essenciais de promoção, prevenção, tratamento e reabilitação, articulando ações individuais e coletivas. Entre suas atribuições destacam-se consultas médicas e de enfermagem, acompanhamento de condições crônicas, imunização, pré-natal, atenção à saúde da criança, do adolescente, do adulto e do idoso, além de iniciativas educativas e intersetoriais voltadas ao fortalecimento dos determinantes sociais da saúde. (BRASIL, 2017)
Enquanto a APS, pela sua capilaridade e descentralização, é a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS) e desempenha papel essencial na organização do cuidado em saúde no Brasil. Sua operacionalização ocorre predominantemente por meio da Estratégia Saúde da Família (ESF), que integra equipes multiprofissionais mínimas a especialistas de diferentes áreas. Esse modelo de atenção fortalece a integralidade da assistência, garantindo um atendimento pautado nos princípios da universalidade, equidade e integralidade, fundamentais para a promoção da saúde e a melhoria da qualidade de vida da população (BRASIL, 2017).
A enfermagem globalmente configura-se como uma profissão de relevante importância social e histórica, inserida no processo de trabalho em saúde e em articulação com os demais membros da equipe multiprofissional. Nesse cenário, o enfermeiro assume papel de protagonista, exercendo sua autonomia técnica e científica como condição estratégica para a efetividade, a resolutividade e a humanização do Sistema Único de Saúde (SUS). (GALVÃO et al., 2024)
Sua atuação não se limita ao cuidado direto, mas abrange também funções administrativas, gerenciais e educativas, as quais são regulamentadas pela Lei nº 7.498/1986, que dispõe sobre o exercício profissional da enfermagem, e pela Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), que estabelece a integralidade do cuidado em todos os ciclos de vida, nos âmbitos individual, familiar e comunitário. Assim, a autonomia do enfermeiro ultrapassa a dimensão individual do trabalho e expressa-se na capacidade de tomar decisões clínicas e gerenciais com liberdade e responsabilidade, sempre dentro dos limites legais e éticos que fundamentam sua prática. (PNAB/1986)
Na Estratégia Saúde da Família (ESF), que reorienta o modelo de atenção à saúde colocando a família no centro do cuidado, o enfermeiro emerge como uma peça-chave. Este profissional mobiliza um conjunto diversificado de saberes e competências para enfrentar os mais variados desafios da comunidade (LOPES, et. al., 2020). Entre suas atribuições essenciais, destacam-se a realização da consulta de enfermagem, aplicando a Sistematização da Assistência de Enfermagem, a prevenção de agravos à saúde e a aplicação de protocolos clínicos para o acompanhamento no pré-natal, puerpério e do recém-nascido. Ademais, o enfermeiro é responsável por estratégias como a supervisão direta do tratamento da tuberculose, campanhas de conscientização sobre HIV, o suporte à adesão à terapia antirretroviral e, de modo mais amplo, a promoção da saúde por meio de ações educativas, grupos de terapia comunitária, liderança e desenvolvimento de outros profissionais (PIRES, et. al., 2022). Diante desses elementos configura-se de forma relevante compreender a autonomia do enfermeiro na Atenção Primária em Saúde, através de sua percepção.
2. METODOLOGIA
Este estudo se trata de uma revisão integrativa da literatura com abordagem qualiquantitativa, elaborada com o propósito de compreender como o enfermeiro percebe sua autonomia na Atenção Primária à Saúde (APS). A revisão integrativa permite reunir e analisar resultados de diferentes pesquisas, promovendo uma visão ampla e fundamentada sobre o tema.
A busca dos estudos foi realizada na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e PubMED, utilizando os descritores cruzados concomitantemente “Enfermeiro and Atenção Primária à Saúde and
Autonomia”. Inicialmente, foram encontrados 415 artigos. Destes, 10foram excluídos por serem duplicatas. A triagem dos títulos resultou na exclusão de mais 395 artigos. Foram analisados 10 resumos, 7 artigos foram então avaliados na íntegra, e 5 foram finalmente incluídos na revisão.
Foram selecionados artigos publicados entre 2020 e 2025, em língua portuguesa, disponíveis em texto completo, e que abordassem diretamente a autonomia do enfermeiro no contexto da APS. Foram excluídos materiais duplicados, resumos, teses, dissertações e publicações que não tratassem especificamente do tema (conforme a Figura 1). Os resultados dos artigos foram organizados em formato de tabela, inserindo o autor e os principais resultados obtidos (Tabela 2).
Figura 1.

3. RESULTADOS/DISCUSSÃO
Tabela 1
| ESTUDO | PRINCIPAIS RESULTADOS |
| Busatto LS et. al., 2024 | Destaca-se a autonomia do enfermeiro nas ações de saúde da mulher e planejamento familiar, apresentando algumas limitações como a solicitação de alguns exames, no entanto essa autonomia resulta na resolutividade da assistência. |
| Galvão JJ et. al., 2024 | Nota-se que o enfermeiro reconhece a autonomia na prescrição de medicamentos e solicitação de exames, nas áreas de gestão/gerência e na prática assistencial dos programas de saúde pública da APS e nas práticas individuais e coletivas voltadas a prevenção; |
| Vendruscolo C et al, 2020 | Identifica-se o enfermeiro como peça fundamental nas discussões de caso da equipe multidisciplinar, atuando como mediador da comunicação entre os demais profissionais; se identifica como líder, estando preparado para o trabalho em equipe, além de coordenar grupos na unidade e convocar os pacientes para participar. |
| Sacramento RS et al, 2023. | A autonomia do enfermeiro na APS manifesta-se pela SAE e pelo Processo de Enfermagem, permitindo consultas resolutivas, solicitação de exames e prescrição conforme protocolos, além de fortalecer o vínculo com o usuário e a qualidade do cuidado. |
| Geremia DS et. al., 2024. | Observa-se autonomia do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde se evidencia no cuidado à mulher, no atendimento de ISTs e no tratamento de feridas. Na consulta de enfermagem, o profissional toma decisões embasadas em protocolos e evidências científicas, conforme a Lei do Exercício Profissional, fortalecendo a resolutividade da assistência e seu protagonismo no cuidado. |
Os estudos analisados revelaram que a autonomia do enfermeiro na APS é compreendida como um processo em construção, fortemente relacionado à ampliação do papel desse profissional dentro das equipes multiprofissionais e à consolidação da Estratégia Saúde da Família (ESF) como modelo de atenção. Observou-se que a autonomia é exercida principalmente por meio da consulta de enfermagem, da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), da educação em saúde e da gestão do cuidado, evidenciando o protagonismo do enfermeiro na coordenação e continuidade da atenção à saúde.
De acordo com Sacramento et al (2023), A autonomia do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde (APS) manifesta-se por meio da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) e do Processo de Enfermagem, que tornam a consulta mais efetiva e resolutiva, permitindo ao profissional solicitar exames e prescrever medicamentos conforme protocolos institucionais. Esse exercício autônomo também se expressa no acolhimento e na escuta qualificada, que favorecem a resolução de demandas e o fortalecimento do vínculo com o usuário. Além disso, o enfermeiro desempenha papel essencial na coordenação e gestão dos serviços de saúde, contribuindo significativamente para a qualidade do cuidado e para a melhoria dos indicadores assistenciais na unidade básica de saúde.
Pôde ser observado grande autonomia do enfermeiro no âmbito da saúde da mulher, conforme mencionados em dois estudos (Geremia et al e Busatto et al), o enfermeiro possui autonomia nas ações de saúde da mulher e planejamento familiar, apresentando algumas limitações como a solicitação de alguns exames, no entanto essa autonomia resulta na resolutividade da assistência, visto que o enfermeiro compreende uma desconstrução da subordinação em relação ao profissional médico. Nessas mesmas pesquisas foram mencionados o atendimento de pessoas com infecções sexualmente transmissíveis (IST).
Todos os resultados indicam que a autonomia do enfermeiro na APS é reconhecida como elemento essencial para a efetividade do cuidado, a humanização do atendimento e a integralidade das ações em saúde. Segundo Vendruscolo et al (2020) em seu artigo descreve o enfermeiro como peça fundamental nas discussões de caso da equipe multidisciplinar, atuando como mediador da comunicação entre os demais profissionais garantindo a integralidade da assistência; se identificando como líder, estando preparado para o trabalho em equipe, além de coordenar grupos na unidade e convocar os pacientes para participar.
No contexto da APS, conforme Galvão et al (2024) relata-se a autonomia na prescrição de medicamentos e solicitação de exames, seguindo protocolos pré-estabelecidos. Além disso, também foram mencionados autonomia nas áreas de gestão/gerência e na prática assistencial dos programas de saúde pública da APS e nas práticas individuais e coletivas voltadas a prevenção sendo o enfermeiro um elo de resolutividade entre profissional e usuário.
4. CONCLUSÃO
A prática autônoma do enfermeiro ultrapassa o cuidado técnico, abrangendo dimensões como gestão, referência para usuários e outros profissionais, trabalho em equipe, gestão de pessoas, cuidado integral à saúde e tomada de decisão.
Assim, mesmo diante de desafios, os enfermeiros vêm assumindo um papel estratégico na oferta de um cuidado integral e humanizado, frequentemente exercendo funções que ultrapassam as práticas tradicionais da enfermagem.
No entanto, essa autonomia ainda enfrenta limites impostos pela estrutura hierárquica do sistema e pela necessidade de maior valorização e reconhecimento do papel estratégico do enfermeiro no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).
Nota-se a escassez de estudos que abordem essa temática, o que reforça a relevância do presente trabalho para uma melhor compreensão sobre como se manifesta a autonomia do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde (APS) e como ele se percebe nesse processo, além de servir como incentivo para o desenvolvimento de novas pesquisas sobre o assunto.
5. REFERÊNCIA
BRASIL.Lei nº 7.498, de 25 de junho de 1986.Dispõe sobre a regulamentação do exercício da Enfermagem e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção1, Brasília, DF, 26 jun. 1986. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/lei-n-749886-de-25-de-junho-de-1986_4161.html. Acesso em: 03 maio. 2025.
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2006. (Série Pactos pela Saúde, v. 4). Acesso em: 28 set. 2025.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.436, de 21 de setembro de 2017. Aprova a Política Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes para a organização da Atenção Básica no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 22 set. 2017.
BUSATTO, LS.; et al. Atenção à saúde da mulher na Atenção Primária: percepções sobre as práticas de enfermagem. Enfermagem em Foco, São Paulo, v. 15, supl. 1, p. e-202403SUPL1, 2024. DOI: https://doi.org/10.21675/2357–707X.2024.v15.e–202403SUPL1. Disponível em: https://enfermfoco.org/wp–content/uploads/articles_xml/2357–707X–enfoco–15–s01–e202403SUPL1/2357–707X–enfoco–15–s01–e–202403SUPL1.pdf. Acesso em: 10 set. 2025.
GALVÃO, JJ.; et al. Autonomia do enfermeiro no exercício das práticas de enfermagem na Atenção Primária à Saúde. Enfermagem em Foco, São Paulo, v. 15, supl. 1, p. e-202415SUPL1, 2024. DOI: 10.21675/2357-707X.2024.v15.e-202415SUPL1. Disponível em: https://enfermfoco.org/wpcontent/uploads/articles_xml/2357–707X–enfoco–15–s01–e–202415SUPL1/2357–707X–enfoco–15–s01e–202415SUPL1.pdf. Acesso em: 7 set. 2025.
GALVÃO, JJ.; et al. Autonomia do enfermeiro no exercício das práticas de enfermagem na Atenção Primária à Saúde. Enfermagem em Foco, São Paulo, v. 15, supl. 1, p. e-202415SUPL1, 2024. DOI: 10.21675/2357-707X.2024.v15.e-202415SUPL1. Disponível em: https://enfermfoco.org/wpcontent/uploads/articles_xml/2357–707X–enfoco–15–s01–e–202415SUPL1/2357–707X–enfoco–15–s01e–202415SUPL1.pdf. Acesso em: 7 set. 2025.
LOPES OCA, et al. Competências dos enfermeiros na estratégia Saúde da Família. Esc Anna Nery 2020;24(2):e20190145 Disponível em: https://www.scielo.br/j/ean/a/zB5Npy99wyPDGX4jXzdNDYp/?format=pdf&lang=pt Acesso em: 28 set 2025
GEREMIA, DS.; et al. Autonomia profissional do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde: perspectivas para a prática avançada. Enfermagem em Foco, v. 15, supl. 1, p. e-202417SUPL1, 2024. DOI: 10.21675/2357-707X.2024.v15.e-202417SUPL1. Acesso em: 08 ago. 2025.
PIRES, RCC, LUCENA, AD, MANTESSO, JBO. Atuação do enfermeiro na atenção primária à saúde (APS): uma revisão integrativa da literatura. São Paulo: Rev Recien. 2022; 12(37):107-114. Disponível em: https://recien.com.br/index.php/Recien/article/view/600. Acesso em: 28 set. 2025
SACRAMENTO, RC.; et al. Dimensões assistenciais do trabalho do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde. Revista da Escola de Enfermagem da USP, v. 57, 2023. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ean/a/GfcP3QMxB856MvCPymwWGfc/?lang=pt. Acesso em: 18 abr. 2025.
VENDRUSCOLO, C.; et al. Ações do enfermeiro na interface com os Núcleos Ampliados de Saúde da Família e Atenção Básica. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 54, 2020. DOI: 10.1590/S1980-220X2019008903642. Disponível em: https://www.revenf.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0080-62342020000100486. Acesso em: 8 ago. 2025.
1Acadêmica concluinte do curso de Bacharelado em Enfermagem do centro Universitário FACP.
2Acadêmico concluinte do curso de Bacharelado em Enfermagem do centro Universitário FACP.
3Acadêmica concluinte do curso de Bacharelado em Enfermagem do centro Universitário FACP.
4Enfermeira. Mestre em Saúde Pública pela Universidade do Oeste do Paraná -UNIOESTE. Professora do Curso de Enfermagem do Centro Universitário FACP. Orientadora do presente trabalho. fabiana.timoteo@facp.br. leticiadias.1202@gmail.com. coordenacaoadm.matheus@gmail.com. zannysu@yahoo.com.br
