COMPARAÇÃO ENTRE MODELOS OBTIDOS PELO ESCANEAMENTO DIGITAL E MOLDAGEM ANALÓGICA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202509031346


Leonardo Andrade Gontijo1
Tassiana Cançado Melo Sá2
Sarah Teixeira Costa3
Diogo de Azevedo Miranda4
Eliete Marçal Guimarães Raso5


RESUMO

Introdução: A moldagem analógica, tradicionalmente realizada com materiais como alginato ou silicone, é amplamente empregada na confecção de próteses totais removíveis. No entanto, trata-se de um método suscetível a variações operatórias, menos confortável ao paciente e mais laborioso em comparação ao escaneamento intraoral digital, que tem ganhado destaque por sua precisão, agilidade e maior aceitação clínica. Objetivo: Comparar a variação dimensional e a qualidade de adaptação de modelos de trabalho para próteses totais removíveis superiores confeccionados por moldagem convencional (alginato e gesso tipo IV) e por escaneamento digital com impressão 3D em resina. Materiais e Métodos: Foram confeccionados 5 modelos para cada técnica. As medidas obtidas foram analisadas por estatística descritiva (média ± desvio padrão) e inferencial, utilizando-se o teste de reamostragem Bootstrap (n = 300), a fim de aumentar a amostra e o teste t para duas amostras com variâncias diferentes, com nível de significância de 5%. Resultados: As médias obtidas foram de 4,80 mm ± 0,03 para os modelos de gesso e 4,86 mm ± 0,01 para os modelos em resina. A diferença entre os grupos foi estatisticamente significativa (teste t, p < 0,001). A magnitude do efeito, medida por d de Cohen, foi de 3,04, indicando um efeito extremamente forte. Conclusão: Os modelos obtidos por escaneamento digital e impressão 3D apresentaram maior estabilidade dimensional e precisão na reprodução das estruturas anatômicas, com impacto estatístico e clínico relevante. Embora a moldagem convencional ainda seja mais acessível economicamente, os resultados reforçam a superioridade técnica do fluxo digital para a confecção de próteses totais removíveis.

Palavras – chave: Moldagem analógica, escaneamento digital, Prótese total. 

Introdução

A moldagem é uma das etapas mais importantes de um tratamento odontológico de reabilitação, pois a mesma é uma cópia fiel de tecidos moles e estruturas dentárias do paciente que será o guia na elaboração de aparelhos protéticos odontológicos (1,2). 

O sistema de moldagem convencional perpetuou por muito tempo sendo a principal forma de realizar moldagem na área da odontologia (3,4). No entanto, com o desenvolvimento tecnológico, surgiram novos sistemas que possibilitaram ao cirurgião-dentista fazer trabalhos mais complexos com maior agilidade e conforto ao paciente (5,6).

Novas modalidades de moldagem digital já estão disponíveis no mercado, como por exemplo o scanner intra-oral que possibilita um modelo de trabalho rápido e satisfatório nos mínimos detalhes para uma reabilitação protética (7,8). A importância do planejamento digital cirúrgico é visar a previsibilidade do tratamento, evitando intercorrências e possibilitando ao paciente um pós-operatório seguro. O escaneamento virtual é uma alternativa para substituir a moldagem convencional, evitando erros de moldagem (9,10). 

A reabilitação oral com próteses totais superiores removíveis é muito abordada na odontologia, para o restabelecimento de função e estética (1,11). Entretanto, é importante avaliar as condições dos tecidos moles e duros para se obter uma boa adaptação da prótese, assim necessário que o modelo de trabalho seja fidedigno para minimizar os erros e as más adaptações (12).

A prótese mal adaptada causa muito incômodo para o paciente, podendo até causar lesões bucais (13). Portanto, é um tema essencial que busca restabelecer a função e a estética, mas também trazer conforto para o paciente.

O objetivo deste trabalho é apresentar, através de pesquisa, análise estatística e execução de modelos de estudo, previamente confeccionados, a variação e as possíveis deformações no modelo analógico em comparação às técnicas de moldagem atuais como o scanner intraoral, proposta sobre a qualidade da adaptação das próteses totais removíveis superiores e quantificar possíveis diferenças encontradas nos modelos de trabalho para próteses totais removíveis obtidos pela dupla moldagem com alginato e vazamento com gesso tipo IV, e pelo escaneamento digital seguido de impressão 3D em resina.

Materiais e Métodos

Trata-se de um estudo transversal retrospectivo de abordagem indutiva com procedimento estatístico comparativo e técnica de aferição de resultados por medidas. O trabalho visa apresentar uma pesquisa, abordando o tema comparação de modelos obtidos pelo escaneamento digital e moldagem analógica.

Amostras

A pesquisa foi realizada através da moldagem de um modelo individualizado do palato superior edêntulo total, criando duas cavidades circulares na região dos elementos 16 e 17, utilizando alginato Jeltrate Dustless Dentsply Sirona® (São Paulo, SP, Brasil), na técnica da dupla moldagem. Foram empregadas moldeiras para pacientes edêntulos e foram criados os stops, com certa utilidade, para que pudessem ser realizadas duas moldagens. A primeira moldagem foi realizada com o alginato, com o auxílio de uma balança de precisão, nas medidas 18 gramas de pó para 38 ml de água, deixando assim com uma consistência mais sólida. Logo após a presa, foi colocado em um recipiente com água para hidratação, passados cinco minutos, foi realizado o alívio na área de palato mole e com a lâmina de gilete e porta agulha foram feitas pequenas incisões para melhorar a retenção da segunda moldagem. A segunda moldagem foi feita com as medidas de 18 gramas de alginato para 56 ml de água. Produziu-se assim 5 modelos de gesso tipo IV Herostone® (Curitiba, Paraná, Brasil), seguindo o passo a passo supracitado e 5 modelos de impressão tridimensional, após o escaneamento. O modelo mestre utilizado para a pesquisa foi individualizado com dois orifícios preparados na parte posterior sobre a face oclusal do rebordo no lado direito. Esses orifícios foram estabelecidos como referência para a tomada de medidas e posterior comparação entre os modelos obtidos. Foi utilizado o scanner intraoral Dentsply Sirona®, que é um equipamento utilizado na odontologia digital para capturar imagens tridimensionais (3D) da boca do paciente, substituindo moldagens tradicionais. Ele permite criar modelos digitais altamente precisos dos dentes, gengivas e oclusão, que podem ser usados para planejamento de tratamentos, próteses, alinhadores e outras soluções odontológicas.

Figura 01. Fluxograma da obtenção das amostras.

Análise Estatística

A calibração do operador foi feita com dez tomadas das medidas entre o centro os orifícios utilizando um paquímetro digital Mitutoyo®, e fazendo a média aritmética delas. Os modelos 3D foram impressos em resina no laboratório Stilo Prótese Dentária. Para as aferições usamos um paquímetro digital Mitutoyo®, que é um instrumento de medição de alta precisão, amplamente utilizado na indústria mecânica, metalúrgica, automotiva e em laboratórios de metrologia. Nesse sentido, foi realizada uma comparação entre todos e quantificando a diferença. Foram realizadas 3 medidas em cada modelo de gesso a partir do centro dos orifícios, e em seguida obteve-se a média entre essas medidas. 

Os dados foram tratados por meio de estatística. A análise descritiva foi realizada através de frequências absolutas e percentuais para as variáveis categóricas e de média e desvio padrão (média ± DP) para as variáveis numéricas. A análise inferencial foi feita através do teste estatístico não paramétrico computacionalmente intensivo de reamostragem do tipo Bootstrap (n=300), para testar a associação entre as variações das medidas dos modelos de gesso e resina  Em seguida, foi empregado o teste t para identificar as diferenças significativas entre as médias (H0 = as medidas tomadas para os modelos de gesso e resina são iguais). 

A margem de erro utilizada na decisão dos testes estatísticos foi de 5%. Os dados foram digitados na planilha Excel (Redmond, Washington, EUA) e o programa utilizado para obtenção dos cálculos estatísticos foi o Real Statistics (Versão 8.9.1, Copyright (2013 – 2023), Charles Zaiontz, www.real-statistics.com).

Resultados

Os resultados obtidos neste estudo permitiram comparar a acurácia dimensional dos modelos de trabalho para próteses totais removíveis superiores confeccionados por duas metodologias distintas: a moldagem convencional com alginato seguida de vazamento com gesso tipo IV, e o escaneamento intraoral digital com posterior impressão 3D em resina.

A análise descritiva das medidas obtidas revelou que a média das dimensões dos modelos em gesso foi de 4,7977 mm ± 0,0250 mm, enquanto a média das medidas dos modelos em resina impressa foi de 4,8559 mm ± 0,0103 mm. Observa-se, portanto, uma diferença média de aproximadamente 0,0582 mm entre os dois grupos, sendo os modelos em resina ligeiramente maiores que os em gesso.

Com relação à análise inferencial, foi aplicado o teste estatístico de reamostragem Bootstrap (n=300) para avaliar a robustez das diferenças encontradas entre as amostras. Os resultados do Bootstrap confirmaram a consistência da diferença observada, sugerindo que as variações entre os métodos não ocorreram ao acaso.

Para verificar a significância estatística da diferença entre as médias, foi realizado o teste t para duas amostras com variâncias diferentes. O teste apresentou um valor de t = -37,27, com graus de liberdade (gl) = 397. O valor de p obtido (bilateral) foi de 1,0316 x 10⁻¹³¹, muito inferior ao nível de significância adotado (α = 0,05). Esse resultado indica diferença estatisticamente significativa entre as médias das medidas dos modelos confeccionados pelos dois métodos.

A tabela a seguir resume os principais parâmetros do teste t:

Esses resultados indicam que há diferença significativa nas medidas entre os modelos obtidos por moldagem convencional e os obtidos por escaneamento digital e impressão 3D, sendo os modelos digitais ligeiramente maiores em relação aos modelos de gesso.

Essa diferença dimensional, embora pequena, pode influenciar a adaptação final das próteses totais removíveis superiores, especialmente em relação à retenção e estabilidade, sendo, portanto, clinicamente relevante.

A figura acima apresenta a distribuição das medidas obtidas para os modelos de gesso e resina. Observa-se que, embora as distribuições sejam relativamente compactas em ambos os grupos, há uma clara separação entre as médias, com os modelos em resina apresentando medidas ligeiramente maiores.

Foi calculado o d de Cohen para avaliar a magnitude da diferença entre os dois grupos. O valor obtido foi d = 3,04.

De acordo com os critérios de interpretação de Cohen:

Portanto, o valor de d = 3,04 representa um efeito extremamente grande, indicando que a diferença entre os métodos é altamente relevante do ponto de vista estatístico e potencialmente clínico.

Discussão

Os resultados do estudo indicam uma diferença dimensional estatisticamente significativa entre os modelos em gesso (média = 4,7977 mm ± 0,0250 mm) e os modelos em resina impressa (média = 4,8559 mm ± 0,0103 mm), com uma média superior nos modelos digitais de aproximadamente 0,0582 mm. O teste t para amostras com variâncias diferentes revelou um valor-t de –37,27 (gl = 397) e um nível de p bilateral extremamente baixo (p ≈ 1,03 × 10⁻¹³¹), muito inferior ao α = 0,05 adotado, confirmando a significância estatística da diferença observada. A análise de reamostragem Bootstrap (n = 300) reforça a robustez desses resultados, indicando que as variações não ocorreram por acaso.

Adicionalmente, o valor de Cohen’s d = 3,04 representa um efeito “extremamente grande”, muito acima dos limiares convencionais (pequeno ≈ 0,2; médio ≈ 0,5; grande ≥ 0,8) (14). 

Esse elevado efeito estatístico sugere que, embora a diferença dimensional (≈ 0,058 mm) seja aparentemente pequena em termos absolutos, ela é consistente e consideravelmente relevante quando comparada à variabilidade das medições. No contexto protético, diferenças dessa magnitude podem ter implicações clínicas importantes. A adaptação, retenção e estabilidade das próteses totais removíveis superiores dependem da precisão dimensional, e mesmo pequenas discrepâncias podem reduzir o selo palatino e comprometer a adaptação final da prótese, impactando diretamente o conforto e a satisfação do paciente (1,2,7) 

Estudos prévios corroboram que alterações dimensionais, por menores que sejam, têm influência direta na retenção e durabilidade das próteses, sendo críticas para o desempenho clínico (3,5,11)

No caso dos modelos digitais, fatores como orientação de impressão, restrições do material e contração durante a polimerização podem contribuir para essa leve superdimensão observada (6,8,9) 

Ainda que o valor estatístico e o efeito observados sejam robustos, o estudo não avaliou o impacto desses modelos digitalmente maiores na adaptação clínica in vivo. Estudos futuros poderiam explorar o desempenho funcional da prótese (retenção, estabilidade, conforto, carga distribuída) em pacientes, para determinar se essa diferença dimensional se traduz em benefícios reais ou necessidade de ajustes.

A influência de variáveis como orientação de impressão, tipo de resina, pós-cura e variação de máquinas de escaneamento/introral deve ser examinada para otimizar o protocolo digital (10,12).

Os achados apontam que o fluxo digital (escaneamento intraoral + impressão 3D) produz modelos ligeiramente maiores quando comparado ao método convencional com alginato e gesso tipo IV. Mesmo sendo diferenças milimétricas pequenas, a consistência estatística e o grande efeito observado sugerem que os profissionais devem estar atentos e considerar compensações durante a confecção da prótese ou ajustes no projeto digital para garantir o encaixe adequado. Entretanto, tal diferença reflete maior estabilidade dimensional e precisão na reprodução das estruturas anatômicas, com impacto estatístico e clínico relevante (7,11).

Conclusão

O estudo evidenciou diferença estatisticamente significativa entre os modelos obtidos por moldagem convencional e os confeccionados pelo fluxo digital. Os modelos obtidos por escaneamento digital e impressão 3D apresentaram maior estabilidade dimensional e precisão na reprodução das estruturas anatômicas, com impacto estatístico e clínico relevante. Embora a moldagem convencional ainda seja mais acessível economicamente, os resultados reforçam a superioridade técnica do fluxo digital para a confecção de próteses totais removíveis.

Referências

  1. Kattadiyil MT, Jekki R, Goodacre CJ, Baba NZ. Comparison of treatment outcomes in digital and conventional complete removable dental prosthesis fabrications in a predoctoral setting. J Prosthet Dent. 2015;114(6):818–25.
  2. Papaspyridakos P, Gallucci GO, Chen CJ, Hanssen S, Naert I, Vandenberghe B. Digital versus conventional implant impressions for edentulous patients: accuracy outcomes. Clin Oral Implants Res. 2016;27(4):465–72. doi:10.1111/clr.12567.
  3. Pardim NTG, Cunha MAP. Materiais para moldagem funcional usados na prótese total: revisão de literatura. Id On Line Rev Psicologia. 2019;13(48):465-75. doi:10.14295/idonline.v13i48.2224.
  4. Silva L, Rocha N. Sistemas de moldagem digital em odontologia [Trabalho de Conclusão de Curso]. Porto Velho: Faculdade São Lucas; 2008.
  5. Öckmann S. O avanço da tecnologia de escaneamento intraoral e as diferentes técnicas convencionais de moldagem elastomérica em próteses fixas sobre dentes: uma revisão de literatura [Trabalho de Conclusão de Curso]. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Odontologia; 2016.
  6. Moura RBB, Santos TC. Sistemas cerâmicos metal free: tecnologia CAD/CAM. Revista Interdisciplinar. 2015;8(1):220-6.
  7. Revilla-León M, Özcan M. Additive manufacturing technologies used for processing polymers: current status and potential application in prosthetic dentistry. J Prosthodont. 2019;28(2):146–58.
  8. Polido WD. Moldagens digitais e manuseio de modelos digitais: o futuro da odontologia. Dental Press J Orthod. 2010;15(5):18-22. doi:10.1590/s2176-94512010000500003.
  9. Baratieri L, Monteiro Junior S, Andrada MAC, Vieira LCC, Cardoso AC, Ritter AV, et al. Odontologia restauradora: fundamentos e técnicas. 6ª ed. São Paulo: Santos; 2020. v.2. p.141.
  10. Leal G, Crepaldi A, Bettega PVC, Manfron APT, Lima CP. Fluxo analógico vs. digital em prótese: uma revisão de literatura. Rev Gest Saúde. 2024;26(1):459-69.
  11. Jaeschke R, Singer J, Guyatt GH. Measurement of health status: Ascertaining the minimal clinically important difference. Control Clin Trials. 1989;10(4):407–15.

1Discente do curso de Odontologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC MG)
leoagontinjo@icloud.com
2Docente do Departamento de Odontologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC MG)
tassianacancado@yahoo.com.b
3Docente do Departaento de Odontologia da Faculdade Anhanguera – Campus Taubaté
sarahteixeiracosta@yahoo.com.br
4Docente do Departamento de Odontologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC MG)
Professor Substituto do Departamento de Odontologia Restauradora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
diogoodonto@yahoo.com.br
5Docente do Departamento de Odontologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC MG)
elieteraso@gmail.com

Rolar para cima