REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202507271450
Gabriela Rye Tinem Hirata*; Emanuelle Figueira Vasconcelos*; Felipe Augusto Vieira*; Júlia Bahia Oliveira*; Profa. Me. Ana Maria Peixoto Guimarães de Araujo**; Prof. Dr. Alexandre Luiz Affonso Fonseca**; Profa. Dra. Kelly Cristine Tarquinio Marinho**; Prof. Dr. Elcio Magdalena Giovani**; Profa. Dra. Sucena Matuk Long**
RESUMO
Os primeiros mil dias do bebê são cruciais para o crescimento e desenvolvimento infantil, bem como para a formação de hábitos alimentares. O objetivo desse trabalho foi avaliar, por meio de uma revisão de literatura, quando e como introduzir a alimentação complementar nos primeiros mil dias do bebê, com vistas a estimular o desenvolvimento do sistema estomatognático e fundamentar os hábitos alimentares para a vida adulta. A amamentação exclusiva até os seis meses é fundamental, trazendo benefícios imunológicos, nutricionais e psicológicos para o bebê e para a mãe. A introdução da alimentação complementar deve ser gradual, segura e baseada em alimentos in natura e minimamente processados. O leite materno é insubstituível, oferecendo nutrientes essenciais para o sistema imunológico e do sistema estomatognático. Deve ser exclusivo até o sexto mês, para posterior a introdução da alimentação complementar de forma gradual, respeitando a evolução fisiológica da criança. Os produtos ultraprocessados trazem consequências negativas para a saúde infantil, assim como a introdução de açúcar deve ser realizada após os dois anos de idade. A prática inadequada da introdução alimentar favorece o surgimento de doenças como obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão arterial, distúrbios respiratórios e problemas de desenvolvimento orofacial e impactam negativamente na formação de hábitos saudáveis. A atuação ativa de profissionais da saúde, em especial cirurgiões-dentistas, nutricionistas e pediatras, é imprescindível na educação e orientação de mães e/ou responsáveis, estabelecendo estratégias para construção de hábitos saudáveis desde a primeira infância.
Palavras-chave: Aleitamento materno; Alimentação complementar; Desmame; Sistema estomatognático
ABSTRACT
The baby’s first thousand days are crucial for child growth and development, as well as for the formation of eating habits. The objective of this study was to evaluate, through a literature review, when and how to introduce complementary feeding in the baby’s first thousand days, with a view to stimulating the development of the stomatognathic system and supporting eating habits for adult life. Exclusive breastfeeding for six months is essential, bringing immunological, nutritional and psychological benefits to the baby and the mother. The introduction of complementary feeding should be gradual, safe and based on natural and minimally processed foods. Breast milk is irreplaceable, offering essential nutrients to the immune system and the stomatognathic system. It should be exclusive until the sixth month, after the introduction of complementary feeding gradually, respecting the physiological evolution of the child. Ultraprocessed products have negative consequences for children’s health, as well as the introduction of sugar should be carried out after two years of age. The inadequate practice of food introduction favors the emergence of diseases such as obesity, type 2 diabetes, high blood pressure, respiratory disorders and orofacial development problems and negatively impacts the formation of healthy habits. The active performance of health professionals, especially dentists, nutritionists and pediatricians, is essential in the education and guidance of mothers and/or guardians, establishing strategies for the construction of healthy habits from early childhood.
Keywords: Breast feeding; Complementary feeding; Weaning; Stomatognathic system
INTRODUÇÃO
Os primeiros mil dias se iniciam na concepção até o final do segundo ano de vida, considerado como o período de janela de oportunidades, em que ocorrem o crescimento e desenvolvimento do bebê, sendo o momento em que se estabelecem os hábitos alimentares saudáveis que podem ser refletidos de forma positiva na vida adulta (Feitosa, Da Silva, Da Silva, 2020; Andrade, Galina, Dotto, 2023; Garzão et al., 2023).
Até seus primeiros seis meses de vida, o bebê deve ser alimentado de forma exclusiva com o leite materno (Escrivani et al., 2023). As vantagens são diversas, como a redução da mortalidade infantil, prevenção de alergias, problemas respiratórios, de desenvolvimento psicológico, fortalecimento imunológico, traz uma melhor absorção de nutrientes, entre outros. Os benefícios a saúde não são somente para a criança, mas para a mãe também, como por exemplo: a diminuição da hemorragia pós-parto, a criação de um laço afetivo entre mãe e filho, a diminuição de chances de anemias, redução do risco de câncer de mama, uma recuperação mais rápida de peso, além de outras patologias (Da Silva, Da Silva. 2022).
Há uma grande influência das primeiras experiências nutricionais, interferirem no desenvolvimento de possíveis doenças crônicas na idade adulta como a hipertensão, obesidade, doenças cardiovasculares e diabetes mellitus tipo 2 (Patrício et al., 2023).
A introdução alimentar deve se iniciar após os seis meses de vida, de forma gradual e com vários tipos de alimentos, com a intenção de desenvolvimento de hábitos saudáveis. Porém, quando a alimentação complementar é introduzida de forma incorreta ou devido ao desmame precoce, desencadeia prejuízos relacionados à saúde do bebê, uma vez que seu trato gastrointestinal ainda não está maduro o suficiente, podendo acarretar consequências de curto e longo prazo (Vescovi et al., 2022), como, por exemplo, infeções (Souza; Molero; Gonçalves, 2021).
Dessa forma, há necessidade da atuação de profissionais da saúde capacitados e constantemente atualizados, para que saibam orientar familiares, pais e/ou responsáveis, de forma correta, sobre as verdades, mentiras, vantagens e malefícios que envolvem a alimentação complementar, porque existem muitas informações errôneas e desatualizadas. (Garzão et al., 2023).
O objetivo desse trabalho foi avaliar quando e como introduzir a alimentação complementar nos primeiros mil dias do bebê, com vistas a estimular o desenvolvimento do sistema estomatognático e fundamentar os hábitos alimentares para a vida adulta, por meio de uma revisão de literatura narrativa, utilizando as bases de dados Pubmed, Scielo, Google Acadêmico e Portal Capes, entre os anos 2020 e 2024, utilizando as palavras-chave: Aleitamento materno; Alimentação complementar; Desmame; Sistema estomatognático
DESENVOLVIMENTO TEÓRICO
ALEITAMENTO MATERNO
O aleitamento materno exclusivo deve ser recomendado durante os primeiros seis meses de vida do bebê (Weffort, De Mello, 2021; Escrivani et al., 2023), por ser muito importante para o desenvolvimento da microbiota intestinal, favorecendo os macros e micronutrientes, além dos compostos bioativos que são responsáveis por trazer propriedades antimicrobianas e imunomoduladoras, que promovem a maturação da microbiota intestinal infantil. Os recém-nascidos alimentados de forma exclusiva, por leite materno, possuem uma microbiota com variadas espécies de micro-organismos (Escrivani et al., 2023). Esses são de extrema importância, na maturação do sistema imunológico, que agirá, no controle à suscetibilidade de alergias, diabetes e obesidade, redução de infecções tanto do trato gastrointestinal como das vias respiratórias, além de melhor capacidade de absorção de nutrientes e um fortalecimento imunológico (Vescovi et al., 2022; Vieira et al. 2024). Reduz a mortalidade infantil e traz um melhor desenvolvimento psicológico e neuropsicomotor (Da Silva, Da Silva, 2022), contribuindo para a diminuição de riscos contra doenças agudas, otites, gastroenterites, asma, diarreias, doenças crônicas não transmissíveis ao longo da vida (Brockveld, Venâncio, 2022), melhorando as condições de saúde, que envolvem tanto o recém-nascido, como a mãe e a família (Da Silva, Da Silva, 2022).
A complementação do leite materno, com água ou líquidos não-nutritivos, não é adequada durante os primeiros seis meses de vida, por ser desnecessária, por favorecer a redução da quantidade de mamadas, assim como pela diminuição da duração do aleitamento materno, levando consequentemente ao desmame precoce e acarretando diversos malefícios à saúde do bebê e da mãe (Lima, Meneghin, Wichoski, 2022).
BENEFÍCIOS DO ALEITAMENTO MATERNO PARA O BEBÊ
A ingestão exclusiva de leite materno é de extrema importância no primeiro ano de vida, pois tem a capacidade de desenvolver tipos de mecanismos, que conseguem regular a ingestão calórica e a regularização do apetite, promovendo saciedade e regulando o balanço energético na diminuição do consumo de calorias. (Patrício, Leonel, Franco et al., 2023).
Durante a amamentação, a sucção contribui para o desenvolvimento do sistema estomatognático da forma correta, pois é neste momento que ocorre o correto posicionamento da língua, pela pressão realizada no seio materno, proporcionando a quantidade adequada a ser deglutida, contribuindo para o correto desenvolvimento do sistema ósseo e muscular, favorecendo a respiração nasal (Braga et al., 2020).
Souza, Mollero, Gonçalves (2021) e Da Silva, Da Silva, (2022), estão de acordo com Braga, Gonçalves, Augusto (2020) que salientam que o aleitamento materno previne deformidades nas estruturas ósseas e dentárias, alterações miofuncionais e orofaciais, favorecendo uma musculatura labial inferior hipertônica, evitando interposição de língua, crescimento mandibular exagerado, oclusopatias, atresias do palato, musculatura labial superior hipotônica, além de favorecer o desenvolvimento psicológico, a estimulação das funções orais e da obtenção de uma oclusão sem desvios.
Feitosa et al. (2020) relatam um fortalecimento gradativo do sistema imunológico, protegendo o indivíduo de futuras doenças, estando de acordo com Vieira et al. (2024) que acrescentam que o aleitamento materno colabora na diminuição nas taxas de mortalidade e morbidade por infecção (Braga, Da Silva et al. (2020) e De Souza et al. (2021), porque o leite materno é o alimento mais adequado durante os primeiros seis meses de vida, não havendo necessidade de ter introdução alimentar com outro tipo de comida líquida ou sólida, prevenindo a obesidade (Patrício, Leonel, Franco, 2023),.
BENEFÍCIOS DO ALEITAMENTO PARA A MÃE
Os benefícios do aleitamento para a mãe são muitos, como aumentar o laço afetivo entre ela e o filho, recuperar o peso de forma mais rápida, diminuir da incidência de hemorragias pós-parto, evitando, dessa forma, a probabilidade de anemia (Da Silva, Da Silva, 2022). Promove vantagens a curto prazo, com a liberação da ocitocina, hormônio com efeito protetor nos transtornos do estado de ânimo materno. A longo prazo, previne o desenvolvimento de diabetes tipo 2, da amenorreia da lactação e redução do risco de câncer de ovário ou de mama. (De Sousa et al., 2021).
DESMAME PRECOCE
O desmame precoce ocorre quando o aleitamento materno é interrompido antes dos seis meses de idade (Da Silva, 2020). Pode ocorrer pelo uso de mamadeiras ou bicos artificiais, oferta de chupetas, introdução precoce de alimentos ou outros líquidos antes dos seis meses de vida. Também interferem inexperiência materna, problemas mamários como dor e desconforto, mito de leite fraco ou insuficiente, rejeição do bebê ao seio, introdução precoce de alimentos ou outros líquidos antes dos seis meses de vida, rejeição do bebê ao seio e a falta de orientação profissional (Da Silva, Ribeiro, Bezerra, 2022).
Outras situações como cansaço por parte da mãe, falta de evolução do peso da criança, ingurgitamento materno e mastite, assim como condições de trabalho materno que podem levar a um desmame cada vez mais precoce, além da influência cultural das famílias, renda familiar, o nível de escolaridade da mãe, a presença ou não do pai, valorização estética do corpo por parte da mulher após o parto, condições habituais de vida, entre outros (Lima, Meneghin, Wichoski, 2022). Outros motivos, variam desde os biológicos, psíquicos, histórico-culturais como socioeconômicos (Feitosa, Da Silva, Da Silva, 2020).
Caso ocorra um desmame precoce, de acordo com Da Silva et al. (2020) e Patrício, Leonel, Franco(2023), podem surgir alterações negativas no desenvolvimento e na saúde da criança, como possíveis alergias alimentares, diarreias, desenvolvimento incompleto motor-oral, obesidade infantil que
A idade das mães também pode ser considerado um motivo do desmame antecipado, pois mães muito jovens apresentam duração menor do aleitamento, por problemas envolvendo o poder aquisitivo, por serem solteiras, de menor nível educacional, ausência de apoio familiar e falta de autoconfiança (Lima, Meneghin, Wichoski, 2022).
No momento que ocorre o desmame, as chances de iniciar um hábito não nutritivo aumenta, com a introdução de mamadeiras e chupetas, levando a prejuízos no desenvolvimento e alterações no sistema estomatognático, com comprometimento das ações neuromusculares e, problemas na fonação, respiração e deglutição e resultando em oclusopatias. É importante ressaltar que a gravidade aumenta com a frequência, a intensidade e duração dos hábitos (Andrade, Galina, Dotto, 2023), podendo também acarretar prejuízos nas funções da respiração, mastigação, deglutição e fonética, por alterar a postura e forçar os órgãos fonoarticulatórios, como maxila, mandíbula, bochechas, soalho de boca, palato duro e mole, lábios, língua, musculatura oral e arcadas dentárias. Pode também ocorrer uma ruptura do desenvolvimento motor-oral correto, além de alterações no funcionamento da defesa orgânica e com isso, acarretar a possibilidade de mortalidade infantil (Feitosa, Da Silva, Da Silva, 2020).
FÓRMULAS INFANTIS
No caso de não ser possível o aleitamento materno, o uso das fórmulas infantis é a única opção viável para a nutrição do recém-nascido. Há muitas fórmulas no mercado, que devem apresentar nas suas composições, as exigências necessárias da Anvisa. Lembrando que o volume e o número de mamadas deve seguir a idade adequada (Weffort, DE Mello, 2021).
De acordo com Escrivani et al., (2023) os recém-nascidos que ingerem fórmulas infantis, ou outros tipos de leite, possuem um número reduzido de bifidobactérias em sua microbiota intestinal, apresentando uma quantidade maior de coliformes, bacteroides, Clostridium e Escherichia coli, conhecidas como patogênicas. Além disso, existe a possibilidade de desenvolvimento de problemas respiratórios, gastrointestinais, alergias a alimentos pela proteína do leite e constipação intestinal, contribuído para diversos prejuízos à saúde da criança.
ALIMENTAÇÃO COMPLEMENTAR
A introdução antecipada da alimentar complementar pode acarretar uma digestão deficiente, dificuldade na assimilação dos nutrientes e com isso, elevar os riscos de desnutrição, anemia, obesidade, crescimento deficiente, de morbidade e mortalidade infantil, entre outras complicações (Machado, Ricci, Giacomin, 2023). Nessa situação, ocorre menor absorção de nutrientes, podendo levar a uma desnutrição infantil por falta de nutrientes como ferro, vitaminas e cálcio, além de doenças como infecções, obesidade, anemia, diabetes mellitus tipo I e diarreias. Da Silva, Da Silva (2022) avaliaram o conhecimento das mães sobre a alimentação complementar e o aleitamento materno e, grande parte delas, não realizaram o aleitamento materno e desconheciam o período de introdução alimentar, os benefícios e fatores de risco de uma complementação alimentar tardia ou precoce ou, até mesmo, os benefícios do aleitamento materno.
De Souza et al. (2021) reforçam que, até o sexto mês de , o leite materno deve ser um alimento único e exclusivo para o recém-nascido e segundo o Guia Alimentar do Ministério da Saúde para crianças brasileiras menores de 2 anos (Brasil, 2021; Weffort, De Mello, 2021), após os seis meses até 2 anos de idade pode se fazer a complementação com outras fontes nutricionais associadas ao leite materno, com a introdução de alimentos sólidos e/ou líquidos, que devem ser diversificados, com alto teor em fibras, sendo preferencialmente in natura para garantir os nutrientes necessários (Escrivani et al, 2023).
Da Silva, Da Silva, Bezerra. (2022) relatam que muitas mães realizam de forma incorreta tanto a prática do aleitamento materno como também o período da introdução alimentar, que pode ocorrer de forma inadequada tanto na forma como na consistência dos primeiros alimentos oferecidos ao bebê. Vescovi et al. (2022) relatam que a grande maioria das crianças possuem uma alimentação que não segue as orientações da OMS e nem do Ministério da Saúde do Brasil.
Para favorecer o crescimento e o desenvolvimento neuromotor da criança, uma introdução alimentar saudável e correta deve ser orientada desde a gestação até os dois primeiros anos, ou seja, durante os primeiros mil dias do bebê. (Machado et al. 2022). A alimentação possui um papel fundamental e, se nessa etapa ocorrer uma oferta insuficiente, tanto em quantidade como em qualidade de nutrientes, somado a outros hábitos não saudáveis, resultam em problemas nutritivos e diversos riscos à saúde (Barbosa, Magalhães, Rocha, 2023).
Patrício, Leonel, Franco (2023) comentam que a obesidade, como é uma doença crônica, está associada a muitas complicações, assim como Souza, Mollero, Gonçalves (2021) relatam que a introdução precoce de outros alimentos na dieta da criança, além de não ser indicada por conta de não possuírem a digestão e absorção de nutrientes de forma correta, ainda não possuem o trato gastrointestinal funcionando de forma plena. A oferta exagerada de alimentos com teor alto de açúcar, conservantes, gordura, sal e corantes, ou seja, os ultraprocessados, apresentam alta densidade calórica e deficiência em nutrientes. Assim, associando a introdução precoce, com alimentos inadequados, em junção com o sedentarismo, de acordo com Patrício, Leonel, Franco (2023) a consequência é um aumento da mortalidade infantil.
A partir dos 6 meses, deve ser feita a introdução de outros alimentos saudáveis e com a maior diversidade possível, entre gostos, cheiros, cor e textura, mantendo o leite materno. O leite materno deve ser mantido em conjunto com a alimentação complementar correta, trazendo assim diversos benefícios desde a facilidade de criar um vínculo entre a mãe e o bebê, um melhor desenvolvimento cognitivo, respiratório, neuropsicomotor, emocional assim como uma imunidade mais elevada, prevenção de doenças crônicas, excesso de peso ou estar abaixo do peso (Hirano, Baggio, Ferrari, 2021; Brasil, MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2021; Weffort, De Mello, 2021).
Incialmente, os alimentos são oferecidos para a complementação do leite materno, e não para substituí-lo, mas, infelizmente, algumas mães, talvez por falta de conhecimento, interrompem o leite materno e realizam uma introdução alimentar equivocada, contribuindo e provocando consequências e prejuízos à saúde da criança (Da Silva, Da Silva, 2022; Oliveira et al., 2022). Os cuidados que envolvem o momento correto de realizar a alimentação complementar, quais alimentos devem ser ofertados e/ou evitados, estão condicionados à promoção de saúde na infância e que se prolongará pela vida adulta, por ser um momento de criação de hábitos (Garzão et al., 2023).
Complementando a ideia, Souza, Mollero, Gonçalves (2021) dizem que é muito fácil encontrar mães oferecendo alimentos ultraprocessados a seus bebês, além de muitas anteciparem a complementação de alimentos Todavia o Ministério da Saúde (2021) divide em categorias os alimentos, salientando que os alimentos ultraprocessados, não apresentam quase nenhum alimento in natura ou minimamente processados em sua composição, não devendo ser ofertados para as crianças assim como os processados, com exceção de pães ou queijos que são produzidos com leveduras, água, um pouco de sal e farinha de trigo refinada ou integral
CATEGORIA DE ALIMENTOS
De acordo com (Hirano, Baggio, Ferrai (2021) os alimentos são subdivididos em quatro categorias: 1. Alimentos in natura ou minimamente processados, 2. Ingredientes culinários processados, 3. Alimentos processados e 4. Ultraprocessados. O Ministério da Saúde do Brasil (2021) os define da seguinte forma;
- Alimentos in natura vêm direto das plantas ou dos animais, não possuindo alterações após deixarem a natureza, enquanto os minimamente processados passam por alterações como limpeza, secagem, moagem, remoção de partes inadequadas, pasteurização, refrigeração, congelamento, fermentação, entre outros, mas essas etapas não envolvem a adição de sal, açúcar, óleos, gorduras ou outras substâncias;
- Ingredientes culinários processados, utilizados no preparo das refeições, são produzidos por uma indústria partindo de substâncias que existem em alimentos in natura, com adição de alguma quantidade de sal / açúcar, com o objetivo de durarem por mais tempo ou para permitir outras formas de consumo.
- Alimentos processados, também contêm adição de alguma quantidade de sal / açúcar.
- Alimentos ultraprocessados são elaborados de forma industrial, por meio de variadas técnicas e etapas, levando a adição de muitos ingredientes e, com isso, apresentam pouca ou nenhuma quantidade de alimentos in natura ou minimamente processados
COMO INTRODUZIR OS ALIMENTOS
O consumo recomendado para as crianças é de cinco refeições que envolvem o café da manhã, o almoço e jantar, ou seja, três refeições principais, com consistência adequada e dois lanches ou entre refeições. Caso seja seguido seis refeições, seguiria com as três refeições principais (café da manhã, almoço e janta), duas entre refeições (lanches) e uma ceia (refeição láctea) (Barbosa, Magalhães, Rocha, 2023).
Para o café da manhã e os lanches da manhã ou da tarde, o leite da mãe continua sendo o alimento mais importante, sendo oferecido sempre que a criança quiser, até seus dois anos ou mais. Ao atingir 6 meses de idade, além do leite materno, são introduzidos outros alimentos como uma fruta no meio da manhã e à tarde. Após completar 1 ano de idade os lanches e café da manhã podem ser alternados, oferecendo alimentos do grupo de cereais, raízes, tubérculos ao invés das frutas. Se for costume da família, verduras e legumes podem ser ingeridos nesses horários, sendo contraindicados alimentos ultraprocessados (Brasil, 2021).
Os alimentos que são processados e ultraprocessados, não são recomendados antes dos dois anos de idade, porque há um risco de preferirem no futuro esses alimentos em relação aos in natura. O grande motivo para a ocorrência de sobre peso nas crianças, é a falta de conhecimento das mães sobre o assunto, sendo necessária a implementação de ações de saúde pública, relacionadas à introdução da alimentação complementar, além da manutenção do aleitamento materno (Souza, Mollero, Gonçalves, 2021).
Sobre o almoço e jantar, deve ser ofertada uma variedade de alimentos, de forma que sejam introduzidos diferentes nutrientes para evitar a deficiência de alguns, que podem provocar anemia e deficiência da vitamina A. Com esta meta, é preciso diversificar com um alimento de cada grupo como: feijões, cereais/raízes/tubérculos, carnes/ovos, legumes e verduras (este grupo pode ter uma quantidade maior quando possível). É importante oferecer os alimentos separados no prato, para a criança reconhecer e se acostumar com a variedade de texturas e gostos. A refeição pode ser complementada com um pedaço de fruta, junto ou logo após a refeição, pois a maioria delas fornece vitamina C, que promove um aproveitamento do ferro do feijão e das verduras pelo organismo, evitando anemia. É importante ter uma rotina para facilitar a criação de hábitos, com intervalos regulares entre as refeições, mas sem uma rigidez nos horários, assim como deve-se evitar comidas nas entre- refeições, para evitar a perda de apetite nas refeições principais (Brasil, 2021)
Durante a refeição, a criança necessita da paciência e atenção por parte dos responsáveis, embora muitos fatores possam contribuir para a dificuldade no início da introdução alimentar. Para isso, no momento da alimentação não é indicado a distração com atrativos como por exemplo: tablet, televisão, brincar ou andar pelos cômodos, para tentar alimentá-la, porque por mais que dê a ilusão que está comendo mais, a criança começa a se alimentar de forma automática, ou seja, não presta atenção na comida, até podendo levar a um excesso de ingestão, que acarretam consequências futuras como a perda de controle do mecanismo de fome e saciedade, provocando a perda ou ganho de peso (Brasil, 2021).
A alimentação complementar deve ser introduzida de forma gradual, adequada e segura, evitando os alimentos processados ou ultraprocessados até os dois anos de vida. Essa introdução também é considerada essencial para um melhor desempenho físico, motor e psicológico (Da Silva, Da Silva, 2022; Oliveira et al., 2022). A introdução de alimentos sólidos e líquidos deve ser realizada com diversas apresentações para um desenvolvimento (Garzão et al., 2023).
Atualmente tem sido introduzido o método BLW (Baby-Lead-Weaning) conhecido como “desmame guiado pelo bebê”, como substituição à alimentação tradicional, na introdução da alimentação complementar, a partir dos 6 meses, que permite que o bebê conduza todo o processo de desmame, usando seus instintos e habilidades mostrando que estão prontos a ingerir outros alimentos além do leite, quando conseguem pegar um pedaço de alimento e colocar na boca por conta própria, sem a necessidade de uma colher (Rapley, Murkett, 2008). O objetivo é que o bebê explore as texturas, cores e sabores dos alimentos ofertados, cozidos, assados e/ou muitas vezes crus, sob a forma de tiras e com o tamanho adequado para que o bebê consiga pegá-lo com as próprias mãos. Segundo estudo de Vieira, Vanicola, Rapley (2020) bebês alimentados pelo método BLW apresentarram melhores taxas de amamentação, estiveram menos expostos ao uso de bicos artificiais, de fórmulas lácteas e de espessantes. Essa introdução de alimentos sólidos pode fazer com que os bebês estejam mais propensos a compartilharem refeições em família, facilitando a adaptação aos sabores e às consistências dos alimentos, potencializando a mastigação e favorecendo o desenvolvimento de habilidades motoras.
Para introdução do método BLW, deve-se avaliar possíveis limitações para os bebês como situações de desenvolvimento limitado, prematuridade com atraso psicomotor, deficiência de ferro e alergenos, pelo fato do método exercer todos os efeitos sensoriais, que se limitados, podem acarretar acidentes como engasgo, sufocamento etc. (Bazurto, 2022).
Entretanto, a seleção dos alimentos que serão comprados para realizar a oferta na dieta está relacionada ao poder de compra, ou seja, situação econômica, que influenciará na composição da dieta, devido ao valor comercial dos produtos nos mercados (De Melo et al., 2021)
A consistência da alimentação complementar se inicia com alimentos amassados com um garfo, a seguir são ofertados alimentos picados em pequenos pedacinhos, podendo ser raspados ou também desfiados, com a intenção de ensinar a criança a mastigar, sendo que o tamanho deve ser aumentado de forma gradual até chegar na consistência da dieta da família. Como o bebê, ainda não consegue comunicar suas vontades de forma verbal, se comunica com sons, choro, movimentando a cabeça e o corpo. Demonstrados esses sinais, os responsáveis devem reagir de forma positiva, ativa, carinhosa e principalmente respeitosa. Deve-se ter uma atenção aos sinais tanto de fome como de saciedade, que variam de acordo com a idade (Brasil, 2021).
A consistência dos alimentos deve ser adequada de acordo com a idade, pois envolvem o uso dos músculos da mastigação, realizando um correto desenvolvimento da face, dos ossos da cabeça, além de colaborar para uma respiração adequada associada a um aprendizado da mastigação. Os alimentos oferecidos devem ser trabalhosos para mastigar, com uma consistência firme, ou seja, que não escorra da colher (Brasil, 2021).
É contraindicado oferecer alimentos muito líquidos, batidos em liquidificador ou peneirados, porque alimentos de consistência mais líquida contém maior quantidade de água do que o próprio alimento, tendo menos nutrientes e oferecendo bem menos energia nessa fase de crescimento, aos seis meses de idade e fazendo com que, futuramente a criança, apresente dificuldades para comer alimentos sólidos, apresentando engasgos e ânsia de vômito (Brasil, 2021).
O preparo das comidas, deve ser, desde o início, com alimentos consumidos pela família, preparado com pequenas quantidades de óleo vegetais e temperos naturais (alho, coentro, cebola, salsa, ervas e outras especiarias). Esses temperos têm o objetivo de evitar a perda de vitaminas e realçar o sabor da comida, lembrando de adicionar pouco sal e óleo de canola e/ou de soja. Evitar o uso de temperos ultraprocessados como sachês, vendidos em cubos ou líquidos, pois estes possuem grandes proporções de sódio que não devem ser consumidos nem pelos adultos e muito menos pelas crianças pois acarretam consequências para a saúde, como o aumento de risco de hipertensão arterial e mudanças nas papilas gustativas, alterando o sabor e promovendo a instalação de hábitos e preferências por comidas ricas em sal (Brasil, 2021; Weffort, De Mello, 2021).
O açúcar não deve ser introduzido para as crianças menores de 2 anos de idade, nem frutas ou bebidas adoçadas com nenhum tipo de açúcar seja este mascavo, branco, cristal, demerara, mel, entre outros. Além do consumo do açúcar ter um alto valor energético e glicêmico, também influencia a criança a aceitar mais comidas açucaradas, interferindo e dificultando que aceite outras opções alimentares mais saudáveis. A chance de um ganho de peso excessivo, pode contribuir para doenças como hipertensão, câncer, diabetes, lesões de cárie e acúmulo de placa bacteriana. A criança acostumada a sabores doces desde o nascimento, pode apresentar resistência e dificuldades na aceitação de verduras, legumes e alimentos que são mais saudáveis (Brasil, 2021; Weffort, De Mello, 2021).
As recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) têm por objetivo a redução de açúcares livres e ter orientações de uma dieta mais saudável, que incluem diretrizes sobre os carboidratos, sódio, ácidos graxos e potássio. Os adoçantes sem açúcar não devem ser utilizados com a ideia de ter a diminuição do risco de doenças não transmissíveis (WHO, 2023).
O mel, por mais que seja um alimento natural, para crianças com menos de dois anos de idade, continua sendo um alimento não indicado, por dois motivos: possui os mesmos componentes do açúcar e apresenta um risco para botulismo (Brasil, 2021).
Com o objetivo de matar a sede da criança, deve ser ofertada água, quando são introduzidos outros alimentos, além do leite materno. Muitos familiares, pais, mães ou outros responsáveis oferecem as crianças sucos naturais de fruta ou industrializados, água de coco, bebidas à base de xaropes entre outros, que não são indicados, porque além de possuírem açúcar, sódio e outros aditivos químicos, acabam influenciando a criança a matar a sede apenas com bebidas açucaradas ou saborizadas, favorecendo uma maior probabilidade de excesso de peso, diabetes e cárie dentária (Brasil, 2021). Outra razão para não se ofertar nenhum tipo de suco, além do especificado anteriormente, é que os sucos, tanto naturais como artificiais, possuem poucas fibras das frutas. Seu consumo exagerado, por mais que seja natural, possui a frutose, que é metabolizada pelo fígado em triglicerídeos, que podem aumentar o risco de esteatose hepática (Weffort, De Mello, 2021).
As frutas in natura, precisam ser picadas, amassadas ou até mesmo raspadas, introduzidas por meio de uma colher. É importante apresentarem fibras e deve-se respeitar a estação do ano, características regionais e o custo (Weffort, De Mello, 2021)
COMENTÁRIOS FINAIS
Os primeiros mil dias de vida do bebê é um momento único e determinante para o crescimento e desenvolvimento integral do ser humano. O leite materno é insubstituível, oferecendo não apenas nutrientes essenciais, como contribuindo para a maturação do sistema imunológico e promovendo o desenvolvimento adequado do sistema estomatognático. Deve ser exclusivo até o sexto mês, para posterior a introdução da alimentação complementar, fundamental na saúde metabólica, imunológica, psicológica e nutricional da criança, com reflexos que se estendem para a vida adulta.
A alimentação complementar deve ser realizada de forma gradual, respeitando a evolução fisiológica da criança, priorizando alimentos in natura e minimamente processados, sendo importante salientar que até os 2 anos de idade não deve ser feita a introdução de açúcares nem a oferta de produtos ultraprocessados.
Muitos dos problemas ligados à amamentação como à introdução complementar estão relacionados a falha de conhecimento das mães, sobre quantidade de benefícios e problemas que podem surgir a curto e longo prazo, além de vantagens relacionadas à própria mãe. A falta de conhecimento está relacionada com a renda familiar, escolaridade, e ocupações fora da casa, ou seja, fatores socioeconômicos (Da Silva, Da Silva, 2022 e Braga, Gonçalves, Augusto, 2020, DE MELO et al., 2021).
Essa falta de conhecimentos é um problema de saúde pública, por serem as causas principais de morbidade e mortalidade infantil. Os recém-nascidos pré-termo, ou seja, com menos de trinta e sete semanas, apresentando peso abaixo de 2.500g estão mais suscetíveis a riscos como problemas nutricionais, distúrbios do metabolismo e atraso de crescimento e desenvolvimento, por falta de maturidade fisiológica quando comparados ao recém-nascidos a termo. A imaturidade fisiológica, acarreta também problemas cardíacos, dificuldades respiratórias, dificuldades na sucção e tônus oromotor diminuído, levando a grandes dificuldades na alimentação. Por essas razões, durante a tentativa de introdução e oferta dos alimentos, pode haver seletividade e recusa de alimentos (Pires et al., 2024).
A atuação ativa de profissionais da saúde, em especial cirurgiões-dentistas, nutricionistas e pediatras, é imprescindível na educação e orientação de mães, pais e responsáveis. Elaboração de cartilhas educativas para auxiliar famílias, profissionais de saúde e principalmente as mães. Pautas sobre até quando amamentar e hábitos não nutritivos devem ser orientados e acompanhados por profissionais da saúde, com o objetivo de garantir um desenvolvimento infantil saudável.
Os ultraprocessados são mais bem aceitos pela população pela facilidade no acesso pelo baixo custo, praticidade e o sabor bem aceito, em geral. Associado a esses alimentos, tem a falta de exercícios físicos que contribuem para a obesidade, sendo que no caso das crianças, esta falta de atividade física está relacionada ao avanço da tecnologia e a criação constante de jogos eletrônicos, televisão e internet, favorecendo a troca das atividades externas pelas tecnológicas. A introdução alimentar complementar incorreta acarreta prejuízos à saúde do bebê, que deve receber o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade, com a alimentação complementar sendo introduzida de forma gradual com alimentos variados (Souza, Mollero, Gonçalves, 2021).
Investir em práticas de orientação alimentar correta e na promoção do aleitamento materno é investir em uma sociedade mais saudável, diminuindo a prevalência de doenças crônicas não transmissíveis e melhorando a qualidade de vida das futuras gerações. A educação nutricional nos primeiros mil dias é, portanto, não apenas uma estratégia de saúde pública, mas um compromisso com o futuro da infância, com a saúde coletiva e com o bem-estar social.
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*Cirurgião dentista formada pela Faculdade de Odontologia da UNIP – Campus Marquês
**Professores da Faculdade de Odontologia da UNIP – Campus Marquês, Alphaville e Indianópolis
